Copel põe retorno acima da expansão e acende alerta sobre supercompetição nos leilões de energia

Companhia sinaliza que poderá ficar fora das disputas de transmissão e armazenamento; deságio superior a 50% e quase 297 GW em projetos de baterias cadastrados aumentam pressão sobre a rentabilidade.
Copel nos leilões de energia

A possível ausência da Copel dos próximos leilões de transmissão e armazenamento de energia não representa uma retirada da companhia do mercado de infraestrutura. O movimento revela uma estratégia mais seletiva: direcionar capital aos projetos nos quais a empresa identifica vantagens competitivas e evitar disputas capazes de reduzir os retornos para níveis inferiores à sua própria taxa mínima.

Em declaração à CNN Brasil, o presidente da Copel, Daniel Slaviero, afirmou que a tendência atual é a companhia não participar do leilão de transmissão previsto para outubro nem dos primeiros certames de baterias, marcados para dezembro. A decisão ainda não é definitiva, mas a justificativa apresentada foi a elevada competição esperada nos dois mercados.

A sinalização ganha relevância porque não parte de uma empresa sem capacidade financeira. A Copel encerrou junho com uma relação entre dívida líquida e Ebitda recorrente de 2,9 vezes, exatamente o centro da estrutura de capital definida pela companhia.

O relatório oficial do segundo trimestre mostra dívida líquida de R$ 19,65 bilhões, prazo médio de 5,2 anos e custo nominal médio de 12,92%. Portanto, a possível ausência dos leilões está relacionada à disciplina de capital, e não à falta de espaço no balanço.

Deságios superiores a 50% mudaram a referência da transmissão

O próximo Leilão de Transmissão nº 4/2026 terá nove lotes, com instalações distribuídas por Amazonas, Bahia, Goiás, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraíba, Paraná, Rondônia e São Paulo. Os empreendimentos serão operados sob contratos de concessão de serviço público.

Um dos lotes inclui instalações atualmente vinculadas à Afluente Transmissão de Energia Elétrica, cujo contrato se aproxima do término. O caso reúne, portanto, tanto a expansão da rede quanto a transferência de ativos existentes para um novo ciclo contratual, segundo as informações divulgadas pela Aneel.

A preocupação da Copel com a competição encontra respaldo nos resultados recentes. Na segunda etapa do Leilão de Transmissão nº 1/2026, os quatro lotes foram arrematados com deságio médio de 53,20% sobre a Receita Anual Permitida máxima definida pelo regulador.

Os projetos somam aproximadamente R$ 1,75 bilhão em investimentos. O lote 7 ficou com o Consórcio Olympus XX, enquanto os lotes 8, 9 e 10 foram vencidos pela Axia Energia Sul. Os resultados foram habilitados pela Aneel em julho.

Nos leilões de transmissão, o deságio diminui a receita anual que será paga à concessionária durante o contrato. Para o consumidor, a competição reduz o custo da expansão da rede. Para o investidor, porém, cada redução na receita diminui a margem disponível para absorver aumento no preço de equipamentos, atrasos ambientais, desapropriações, variações cambiais e custos financeiros superiores aos projetados.

Deságios elevados não significam, necessariamente, propostas inexequíveis. Empresas com menor custo de capital, escala de contratação, sinergia com ativos existentes ou acesso competitivo a fornecedores podem operar com receitas inferiores às exigidas por outros investidores.

A saída de uma empresa da disputa, portanto, não comprova que o modelo esteja desequilibrado. Mas mostra que os diferentes custos de capital estão selecionando quem permanece competitivo.

Baterias atraíram quase 297 GW antes da habilitação

No armazenamento, a pressão competitiva aparece antes mesmo da realização dos leilões.

A Empresa de Pesquisa Energética recebeu 6.091 projetos, que somam 296.807 MW de potência cadastrada. O número é expressivo, mas precisa ser interpretado com cautela. Cadastramento não significa habilitação e tampouco compromisso definitivo de investimento.

A própria EPE ressalta que os projetos ainda serão submetidos à análise técnica. Somente depois dessa etapa será conhecido o volume efetivamente apto a competir.

Mesmo com essa ressalva, a quantidade de projetos demonstra a dimensão do interesse por um mercado que ainda não possui histórico de contratação em larga escala no Brasil. A baixa barreira inicial para cadastrar empreendimentos e a presença de grandes fornecedores internacionais contribuem para ampliar a oferta potencial.

Os leilões de baterias, entretanto, não serão concessões tradicionais. O governo contratará disponibilidade de potência por meio de Contratos de Potência de Reserva de Capacidade com duração de 15 anos, a partir de agosto de 2028.

A Aneel prevê dois certames:

  • o Leilão nº 5/2026, em 2 de dezembro, destinado a sistemas que atendam aos requisitos de conteúdo nacional;
  • o Leilão nº 6/2026, em 4 de dezembro, aberto aos demais projetos habilitados.

Os sistemas deverão oferecer pelo menos 30 MW, operar com duração de quatro horas, atender ao despacho centralizado do Operador Nacional do Sistema e estar preparados para até dois ciclos de utilização por dia. A remuneração ocorrerá por receita fixa, paga em 12 parcelas mensais, conforme as minutas submetidas à consulta pública pela Aneel.

O contrato de longo prazo reduz o risco de demanda, mas não elimina os riscos tecnológicos e financeiros. O investidor continuará exposto à degradação das baterias, substituição de módulos, necessidade de reforços ao longo do contrato, custo de conexão, disponibilidade dos equipamentos e variação cambial sobre componentes importados.

Por isso, o elevado número de projetos cadastrados não significa que todos possam oferecer preços sustentáveis durante 15 anos.

Copel escolheu as hidrelétricas como principal frente de crescimento

A cautela com transmissão e armazenamento contrasta com o avanço da Copel sobre as ampliações das usinas de Foz do Areia e Segredo.

Os projetos foram contratados no Leilão de Reserva de Capacidade de março e receberão aproximadamente R$ 5 bilhões até 2030. As obras acrescentarão cerca de 2,1 GW às duas hidrelétricas, elevando em 33% a capacidade total de geração da companhia.

No segundo trimestre, a Copel já destinou R$ 317,9 milhões às duas ampliações. O valor representou aproximadamente um terço dos R$ 957,2 milhões investidos pelo grupo no período.

A estratégia possui uma diferença importante em relação à entrada em um novo lote de transmissão ou à implantação de um sistema de armazenamento: a Copel parte de ativos que já opera.

Foz do Areia possui estruturas previstas desde o projeto original para receber duas turbinas adicionais. Segredo utilizará túneis construídos durante a implantação da usina e que estavam fora de operação. As duas concessões foram renovadas por 30 anos, oferecendo horizonte contratual para a amortização das obras.

De acordo com a Copel, serão investidos aproximadamente R$ 1,3 bilhão em Foz do Areia e R$ 3,6 bilhões em Segredo. As novas unidades deverão entrar em operação em 2030 e contarão com contratos de disponibilidade de potência por 15 anos.

A companhia está, portanto, concentrando capital em projetos nos quais reúne conhecimento operacional, infraestrutura existente, concessões renovadas e soluções de engenharia que reduzem parte dos riscos de implantação.

Competição beneficia o consumidor, mas precisa preservar a execução

O alerta trazido pela Copel não deve ser interpretado como argumento para reduzir a competição dos leilões. A disputa é justamente o mecanismo utilizado pelo poder concedente para identificar o agente disposto a oferecer o serviço pelo menor custo.

O desafio está em separar eficiência de excesso de otimismo.

Em transmissão, uma receita excessivamente comprimida pode reduzir a capacidade da concessionária de absorver contingências durante a implantação. Nos sistemas de armazenamento, propostas construídas com premissas agressivas sobre preços futuros das baterias, câmbio, degradação e reposição dos equipamentos podem produzir contratos vulneráveis.

Para o poder público, o sucesso do leilão não termina com o deságio. Também depende da conclusão das obras, da disponibilidade dos ativos e da sustentabilidade financeira dos contratos ao longo de décadas.

Isso exige garantias de execução compatíveis, avaliação consistente da qualificação econômico-financeira, fiscalização dos cronogramas e mecanismos que impeçam a transferência indevida de riscos empresariais para consumidores e poder concedente.

Também será necessário acompanhar a concentração dos resultados. Na última disputa de transmissão, uma única empresa venceu três dos quatro lotes. Nos leilões de armazenamento, o número de projetos habilitados e a participação efetiva dos grupos serão indicadores mais relevantes do que o volume preliminarmente cadastrado.

Ausência da Copel não reduz o apetite do mercado

A decisão de não participar pode retirar um concorrente relevante, mas dificilmente comprometerá a realização dos certames. Os últimos resultados da transmissão e o volume registrado para as baterias apontam na direção oposta: existe capital interessado em assumir contratos de longo prazo no setor elétrico brasileiro.

O movimento da Copel revela outra transformação. Depois de um ciclo marcado pela busca de escala e aquisição de ativos, grandes operadoras estão elevando a importância do retorno mínimo, do custo de capital e das vantagens específicas de cada projeto.

A pipeline de concessões pode ser extensa, mas nem toda oportunidade gera valor para todos os investidores.

Para o mercado de PPPs e Concessões, essa seletividade importa porque o número de leilões realizados não é suficiente para medir a qualidade da carteira. Também é necessário observar quais empresas participam, quais ficam de fora, como os riscos estão sendo precificados e se as receitas contratadas serão suficientes para sustentar os investimentos.

A possível ausência da Copel não é um sinal de esvaziamento dos leilões. É um sinal de que, em mercados cada vez mais competitivos, crescer deixou de ser o único objetivo. Crescer com retorno passou a ser a condição.

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