Integração entre ônibus e metrô em Belo Horizonte terá teste contratual em 2028

Conclusão da Linha 2, revisão da concessão metroviária e encerramento dos atuais contratos municipais de ônibus criam uma oportunidade para reorganizar rede, tarifa e bilhetagem; ausência de fonte definida para financiar a integração permanece como principal obstáculo.

Integração entre ônibus e metrô em Belo Horizonte em 2028

A integração entre ônibus e metrô em Belo Horizonte terá uma janela decisiva em 2028. No mesmo horizonte deverão convergir a conclusão da Linha 2, o primeiro ciclo de revisão da concessão metroviária e o encerramento dos atuais contratos municipais de transporte coletivo.

A coincidência oferece uma oportunidade incomum para reorganizar a mobilidade da capital mineira a partir de uma rede integrada. Também expõe um risco: se cada contrato continuar sendo administrado isoladamente, Belo Horizonte poderá ampliar sua infraestrutura sobre trilhos sem criar as condições tarifárias e operacionais necessárias para atrair passageiros.

O desafio não se resume à adoção de um cartão comum ou à concessão de descontos. A integração exige definir quais linhas de ônibus alimentarão as estações, como a receita será dividida, quem financiará a diferença entre a tarifa paga pelo passageiro e a remuneração dos operadores, quais dados estarão sob controle público e como as mudanças serão compatibilizadas com o equilíbrio econômico-financeiro das concessões.

A audiência realizada em 28 de julho na Câmara Municipal confirmou que existe convergência institucional sobre a necessidade da integração. O impasse está no financiamento. Representantes do Estado, do Município e da concessionária reconheceram que ainda não há uma regra capaz de responder à pergunta central: quem pagará a conta?

Integração entre ônibus e metrô em Belo Horizonte converge para 2028

A concessão do metrô da Região Metropolitana de Belo Horizonte foi contratada em março de 2023, por 30 anos. O projeto transferiu à iniciativa privada a operação, manutenção e modernização da Linha 1, além da implantação e operação da Linha 2.

Segundo o Governo de Minas Gerais, a concessão prevê aproximadamente R$ 3,7 bilhões em investimentos. Parte relevante dos recursos necessários à modernização e expansão do sistema será aportada pelos governos federal e estadual.

A Linha 2 terá 10,5 quilômetros e sete estações entre Nova Suíça e Barreiro. A operação integral está prevista para 2028. O projeto deverá beneficiar diretamente cerca de 50 mil passageiros por dia, dentro de uma expansão que inclui a reforma da Linha 1, a modernização das estações e a incorporação de 24 novos trens.

O contrato metroviário também prevê revisões ordinárias em ciclos de cinco anos. Como a concessão começou em 2023, o primeiro ciclo deverá alcançar justamente o horizonte de 2028. Essa revisão poderá avaliar a adequação dos serviços, a atualização dos indicadores e a integração do metrô com os sistemas estadual e municipais de transporte.

No mesmo ano termina a vigência prevista para as quatro concessões municipais de ônibus de Belo Horizonte. Os contratos foram assinados em junho de 2008, com prazo de 20 anos, e abrangem operação das linhas, garagens, bilhetagem e sistemas inteligentes de transporte.

A Câmara Municipal de Belo Horizonte classificou o encerramento contratual como uma vantagem para a introdução de novas regras de integração. Ao contrário de uma alteração imposta durante a vigência de um contrato, uma nova licitação permite que as obrigações sejam precificadas antes da apresentação das propostas.

A dificuldade é que os ônibus metropolitanos seguem outro calendário. O diagnóstico jurídico elaborado pelo BNDES aponta que as concessões metropolitanas também foram contratadas em 2008, mas por 30 anos, com término previsto em 2038.

Belo Horizonte precisará, portanto, coordenar três sistemas com operadores, poderes concedentes e horizontes contratuais diferentes.

Integração é um risco previsto na concessão do metrô

A integração não aparece no contrato metroviário apenas como objetivo de política pública. Ela possui efeitos sobre receitas, demanda e possíveis reequilíbrios.

O diagnóstico do BNDES registra que o poder concedente assumiu o risco de falhas na implementação da integração física, operacional e tarifária entre o metrô e o Sistema Estadual de Transporte. Alterações na divisão da receita das viagens integradas também podem produzir consequências para a remuneração da concessionária.

O contrato ainda trata de mudanças na demanda provocadas pela criação de serviços concorrentes ou por decisões públicas que afetem o número de passageiros. Isso torna a reorganização das linhas de ônibus contratualmente sensível.

Uma linha mantida em percurso paralelo ao metrô pode disputar passageiros com a infraestrutura sobre trilhos. Seu encurtamento para alimentar uma estação, por outro lado, altera a quilometragem, a arrecadação e a operação da concessionária de ônibus.

O mesmo ocorre com o desconto tarifário. Se o passageiro pagar menos do que a soma das remunerações reconhecidas para os dois operadores, alguém precisará financiar a diferença.

A integração, portanto, não pode ser tratada como um benefício gratuito criado apenas pela conexão de sistemas de bilhetagem. Ela gera uma distribuição de custos, receitas e riscos que precisa estar prevista nos contratos.

Audiência expôs o principal impasse: quem paga a conta

A audiência pública realizada pela Comissão Especial de Estudo sobre Contratos de Ônibus mostrou que Estado, Município e concessionária concordam com a necessidade de ampliar a integração. A divergência começa quando o debate chega ao custeio.

O superintendente de Mobilidade de Belo Horizonte afirmou que simulações anteriores tiveram baixa aderência em razão do preço da tarifa. Segundo ele, a integração dependerá de uma regra clara sobre a divisão dos custos.

O governo estadual informou que existe disposição para compartilhar despesas, mas defendeu que primeiro seja calculado o custo total da política. Também mencionou a existência de um grupo de trabalho e a possibilidade de criação de um marco legal do transporte para distribuir responsabilidades entre os entes.

A discussão confirma que a integração tarifária não depende apenas de vontade política. Ela precisa de uma arquitetura financeira.

Uma possibilidade é separar a tarifa pública, paga pelo usuário, da tarifa técnica, que corresponde à remuneração reconhecida para cada serviço. Nesse modelo, o passageiro pode pagar um valor reduzido ou unificado, enquanto os operadores recebem de acordo com critérios previamente estabelecidos.

A diferença precisa ser coberta por receitas tarifárias, subsídios orçamentários, fontes extratarifárias ou uma combinação desses mecanismos. Sem uma fonte permanente, a integração poderá depender de aportes eventuais e ficar vulnerável às condições fiscais de cada governo.

Integração atual continua fragmentada

Belo Horizonte já possui mecanismos de integração. Os cartões BHBUS e ÓTIMO são aceitos no metrô, e algumas combinações oferecem desconto ao passageiro.

Isso não significa que a região opere como uma rede metropolitana única.

A tabela da Prefeitura de Belo Horizonte informa que a combinação entre linhas alimentadoras municipais e metrô custa R$ 9,35. Integrações realizadas fora das estações entre linhas estruturais e o metrô chegam a R$ 10,60, enquanto a combinação com linhas circulares custa R$ 10,05.

Na rede metropolitana, os valores variam conforme a linha, o município de origem e o produto tarifário utilizado. O usuário precisa compreender regras diferentes para cartões, janelas de integração e complementos tarifários.

O Plano de Mobilidade da RMBH reconhece que a integração física e tarifária com o metrô alcança apenas parte das linhas. O documento também identifica fragilidade institucional, baixa coordenação entre gestores e dependência de acordos para repartir receitas.

A situação demonstra que interoperabilidade tecnológica e integração contratual são problemas distintos. Permitir que um cartão seja lido em diferentes sistemas resolve a passagem pela catraca, mas não define quanto cada operador deve receber nem quem financia o desconto.

Linha 2 dependerá dos ônibus para alcançar sua demanda

A ampliação do metrô até o Barreiro não reduz a importância dos ônibus. Ao contrário, transforma o transporte rodoviário em elemento decisivo para o desempenho da nova linha.

O metrô possui capacidade para transportar grandes volumes nos corredores estruturantes, mas não consegue realizar a distribuição capilar nos bairros. Grande parte dos passageiros dependerá do ônibus para chegar às estações ou completar a última etapa da viagem.

Durante a audiência, o diretor da Metrô BH informou que o sistema transporta aproximadamente 90 mil passageiros por dia. Com a Linha 2 e a renovação da frota, a capacidade poderá chegar a 300 mil passageiros diários, conforme o relato publicado pela Câmara Municipal.

Capacidade, entretanto, não equivale automaticamente a demanda.

Para que o investimento em trilhos seja plenamente utilizado, será necessário definir quais linhas funcionarão como alimentadoras, quais continuarão chegando ao centro, como os horários serão coordenados e onde ocorrerão as transferências.

Também será preciso reduzir o custo percebido da baldeação. Um usuário que precisa esperar muito tempo, caminhar por áreas inseguras ou pagar uma tarifa próxima à soma das duas passagens pode preferir permanecer em um ônibus direto, mesmo que a viagem seja mais demorada.

A integração entre ônibus e metrô em Belo Horizonte deverá ser medida não apenas pelo número de cartões compatíveis, mas pelo tempo total de viagem, pela previsibilidade das conexões e pelo custo efetivamente suportado pelo passageiro.

Bilhetagem será uma decisão de governança

O controle da bilhetagem deverá ocupar posição central na futura modelagem.

O diagnóstico do BNDES identificou diferentes meios de pagamento, operadores de bilhetagem e bases de dados na Região Metropolitana. Essa fragmentação dificulta a criação de uma visão única sobre as viagens realizadas.

Uma política integrada precisa registrar quantos passageiros utilizaram cada trecho, quais viagens geraram desconto, quanto cada operador deve receber e qual parcela do custo foi coberta pelo usuário ou pelo poder público.

Essas informações não podem permanecer exclusivamente sob o controle dos prestadores. Os gestores e reguladores precisam ter acesso direto aos dados brutos, capacidade de auditoria e instrumentos para verificar a distribuição das receitas.

Uma câmara de compensação poderá processar os valores das viagens integradas. Para funcionar, porém, deverá possuir regras transparentes, gestão independente e mecanismos que impeçam um operador de controlar informações necessárias à remuneração dos demais.

A bilhetagem também deverá permitir que o passageiro planeje a viagem antes de sair de casa. Simulação de rotas, informação sobre tarifas, previsão de chegada dos veículos e comunicação de interrupções fazem parte da integração operacional, mesmo que não apareçam diretamente no contrato de concessão.

Nova concessão de ônibus pode ser o ponto de virada

A futura licitação do transporte municipal oferece a Belo Horizonte a oportunidade de contratar uma rede preparada para dialogar com o metrô.

As obrigações precisam ser definidas antes do leilão. Inserir posteriormente mudanças de itinerário, novas linhas alimentadoras, descontos tarifários ou exigências de compartilhamento de dados poderá provocar pedidos de reequilíbrio.

A modelagem deverá esclarecer se os operadores serão remunerados pela arrecadação tarifária, pela quilometragem produzida, por indicadores de disponibilidade ou por uma combinação desses fatores.

O oitavo termo aditivo dos contratos atuais já introduziu remuneração relacionada à quilometragem, tema que permanece em debate político e judicial. A futura concessão poderá aperfeiçoar esse desenho, estabelecendo metas de regularidade, pontualidade, qualidade da frota, integração com estações e satisfação dos usuários.

Também será necessário decidir se operação, frota, bilhetagem e gestão financeira continuarão concentradas nos mesmos contratos. A separação dessas atividades pode ampliar o controle público e facilitar a substituição de fornecedores, mas exige coordenação institucional mais sofisticada.

O ponto central é retirar o incentivo econômico para que ônibus e metrô disputem o mesmo passageiro. Os operadores precisam ser remunerados por sua função dentro da rede, inclusive quando uma linha de ônibus alimentar o sistema sobre trilhos em vez de percorrer todo o trajeto até o centro.

O que precisa estar definido até 2028

A janela contratual só produzirá resultados se Estado e Município chegarem a 2028 com decisões tomadas.

A futura modelagem deverá estabelecer uma autoridade responsável pela coordenação da rede, uma fonte de custeio para os descontos, regras de repartição da receita, propriedade pública dos dados e parâmetros para reorganizar as linhas sem criar desequilíbrios contratuais.

Também será necessário compatibilizar a nova concessão municipal com os contratos metropolitanos válidos até 2038 e com a concessão do metrô. Sem um acordo institucional, cada poder concedente poderá continuar planejando sua rede a partir de objetivos próprios.

A revisão do contrato metroviário não substitui a licitação dos ônibus. Da mesma forma, a nova concessão municipal não poderá alterar unilateralmente contratos estaduais. O resultado dependerá de instrumentos de governança capazes de conectar decisões tomadas por órgãos diferentes.

A obra não termina na estação

Belo Horizonte está investindo bilhões de reais na expansão e modernização do metrô. O retorno social desse investimento dependerá da capacidade de conduzir passageiros até as novas estações.

A Linha 2 poderá operar abaixo de seu potencial se a rede de ônibus continuar sobreposta, a tarifa integrada permanecer pouco atrativa e a bilhetagem não permitir uma divisão transparente das receitas.

A coincidência de cronogramas em 2028 cria uma oportunidade concreta para evitar esse resultado. O encerramento dos contratos municipais permite introduzir novas obrigações desde o edital, enquanto a revisão da concessão metroviária abre espaço para avaliar indicadores, demanda e integração.

A audiência pública mostrou que os gestores já conhecem o problema. O próximo passo é transformar a intenção de integrar em uma estrutura contratual financiável.

O teste de 2028 não será apenas entregar a Linha 2 ou publicar uma nova licitação de ônibus. Será demonstrar se Estado e Município conseguem organizar diferentes concessões como partes de uma única rede de mobilidade.

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