Barômetro da EY-Parthenon e da Abdib mostra queda de 54,2% para 37,8% na avaliação favorável ao setor. O contraste com o recorde de R$ 280,4 bilhões investidos em 2025 revela que a cautela não interrompe imediatamente os contratos em execução, mas pode reduzir a competição, elevar os retornos exigidos e tornar a carteira de novos leilões mais seletiva.

Os investimentos em infraestrutura atingiram o maior valor da série histórica em 2025, mas a confiança dos agentes para os seis meses seguintes recuou ao menor nível desde 2022. À primeira vista, os dois movimentos parecem incompatíveis. Para o mercado de concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs), contudo, eles medem fases diferentes do ciclo: o desembolso atual reflete contratos já assinados, enquanto o otimismo indica a disposição de assumir novos riscos.
A 15ª edição do Barômetro da Infraestrutura, elaborado pela EY-Parthenon em parceria com a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), mostra que a parcela dos respondentes com avaliação favorável caiu de 54,2% para 37,8%. A percepção desfavorável avançou de 20,4% para 30,9%.
O levantamento ouviu 233 gestores, investidores e especialistas entre 8 e 23 de junho de 2026. A própria metodologia esclarece que a pesquisa capta a percepção dos participantes e não possui caráter científico. O resultado deve ser lido como um termômetro do mercado, e não como previsão automática de queda nos aportes.
O sinal mais relevante está na formação da próxima carteira. Os investimentos em infraestrutura contratados em leilões anteriores possuem cronogramas, obrigações e metas que continuam vigentes mesmo quando o cenário econômico piora. Já a decisão de disputar um novo ativo depende do custo de capital, da previsibilidade regulatória, da qualidade da matriz de riscos e da confiança na capacidade do poder concedente de cumprir o contrato durante décadas.
Por que os investimentos em infraestrutura podem crescer com menos confiança
Em 2025, os aportes alcançaram R$ 280,4 bilhões, recorde da série iniciada em 2010. Aproximadamente 80% vieram do setor privado, segundo o Barômetro. Esse volume inclui desembolsos realizados por concessionárias de energia, saneamento, rodovias, telecomunicações e outros segmentos com programas de investimento definidos no passado.
Uma concessão rodoviária assinada há dois anos, por exemplo, não deixa de duplicar um trecho apenas porque a percepção do mercado piorou. A empresa continua submetida ao contrato, aos indicadores de desempenho e ao calendário de obras. O mesmo vale para uma concessionária de saneamento obrigada a ampliar redes ou para uma transmissora de energia que precisa entregar novas instalações.
Por isso, o recorde de investimentos em infraestrutura funciona como um indicador defasado da confiança que existia quando esses projetos foram licitados, financiados e contratados. A queda do otimismo atua primeiro sobre o fluxo de novos negócios: estudos são reavaliados, consórcios ficam mais cautelosos, retornos mínimos aumentam e ativos menos maduros podem perder prioridade.
Não há, portanto, uma interrupção imediata do ciclo. Há o risco de uma transição entre uma carteira contratada ainda robusta e uma nova safra de concessões formada sob premissas financeiras mais conservadoras.
A cautela aparece no preço do risco
Para o poder público, menos otimismo não significa necessariamente leilões vazios. O efeito pode surgir antes, na maneira como as empresas precificam os projetos.
Quando a incerteza cresce, investidores tendem a elevar a taxa de retorno exigida. Em uma concessão comum, isso pode reduzir o valor de outorga oferecido, limitar descontos tarifários ou diminuir o apetite por obrigações adicionais. Em uma PPP patrocinada ou administrativa, pode elevar a contraprestação pública necessária para fechar a conta.
O encarecimento do financiamento também interfere na alavancagem e no momento de contratar dívida. Projetos com grande volume de obras nos primeiros anos são mais sensíveis porque precisam levantar recursos antes de consolidar a geração de caixa.
Nesse ambiente, a disponibilidade de crédito de longo prazo e do mercado de capitais passa a pesar ainda mais. O Hub PPP já mostrou como as debêntures incentivadas financiam a infraestrutura, mas permanecem concentradas em poucos setores.
O resultado prático pode ser uma seleção mais dura entre os ativos. Projetos com demanda comprovada, licenciamento encaminhado, regras de reequilíbrio claras e mecanismos de garantia consistentes preservam competitividade. Modelagens com desapropriações indefinidas, investimentos subestimados, receitas acessórias incertas ou dependência excessiva de decisões futuras do governo ficam mais vulneráveis.
Eleição importa pela continuidade, não apenas pelo resultado
A eleição presidencial aparece entre os fatores associados à queda da confiança, mas o dado não deve ser reduzido à preferência por um candidato.
Contratos de PPP e concessão atravessam vários mandatos. Para o investidor, o ponto central é saber se a política de parcerias, o calendário regulatório e os compromissos assumidos sobreviverão à mudança de governo.
A incerteza cresce quando projetos dependem de atos que podem ser revistos, de garantias fiscais ainda não constituídas ou de decisões tarifárias politicamente sensíveis. Nesse ambiente, os investimentos em infraestrutura respondem menos ao calendário eleitoral em si do que à possibilidade de ruptura institucional.
No Barômetro, 44,4% dos participantes apontaram a agenda fiscal e tributária como a principal prioridade para o próximo mandato federal. No recorte específico da infraestrutura, 26,2% escolheram a ampliação dos programas federais de concessões e PPPs; 24,6%, o reforço da segurança jurídica; e 20,9%, novas alternativas de financiamento.
Essas respostas indicam que a eleição afeta os investimentos em infraestrutura sobretudo pela previsibilidade das políticas públicas. Um cronograma de leilões pode atravessar o período eleitoral se os estudos estiverem maduros, as competências institucionais forem claras e os projetos não dependerem de decisões discricionárias de última hora.
O maior risco não é a urna, isoladamente. É a paralisação da tomada de decisões antes e depois dela, com atraso na aprovação de estudos, no envio de projetos aos tribunais de contas, na publicação de editais e na contratação dos vencedores.
Guerra e protecionismo chegam à matriz de riscos
Os riscos externos também deixaram de ser pano de fundo macroeconômico e passaram a interferir diretamente na estrutura dos contratos.
Segundo o levantamento, 64,2% dos participantes enxergam impacto relevante do conflito no Oriente Médio sobre petróleo e logística, somando as respostas de médio e alto impacto. Outros 58,9% atribuem efeito relevante ao aumento do protecionismo e às disputas comerciais.
Combustível, frete, aço, equipamentos importados, seguros e câmbio podem alterar o custo de implantação e operação. Em contratos longos, a pergunta decisiva é se essas variações estão cobertas pelos indexadores ordinários ou se caracterizam eventos extraordinários capazes de gerar reequilíbrio econômico-financeiro.
Uma matriz de riscos genérica transfere a incerteza para o futuro e aumenta a probabilidade de disputa. Uma modelagem mais robusta define os eventos cobertos pela remuneração ordinária, os gatilhos de revisão, as evidências exigidas e a forma de calcular os impactos.
Esse detalhamento pode ser tão importante para destravar investimentos em infraestrutura quanto a redução imediata do custo financeiro.
A reforma tributária amplia essa agenda. O Barômetro informa que 62% das organizações pesquisadas já analisam os efeitos das novas regras sobre seus contratos.
Para PPPs e concessões, a transição tributária pode atingir tarifas, contraprestações, margens, créditos e premissas econômico-financeiras. Ignorar o tema na modelagem tende a converter uma incerteza conhecida em conflito contratual futuro.
Estados preservam vantagem; municípios continuam no gargalo
A queda geral da confiança não atingiu de maneira uniforme todos os concedentes. Os estados continuam percebidos como a principal referência na atração e estruturação de capital privado. A União apresentou pequena melhora no aproveitamento de seu potencial, com a avaliação favorável agregada subindo de 53,2% para 54,6%.
Nos municípios, a fotografia é mais difícil: 74% dos participantes consideram o potencial de concessões e PPPs pouco ou nada aproveitado.
O resultado reforça um problema estrutural. Muitas cidades possuem demandas aptas a contratos de longo prazo — iluminação pública, resíduos, escolas, saúde, mobilidade e equipamentos urbanos —, mas não contam com equipes, dados, garantias ou escala suficientes para estruturar projetos financiáveis.
Em um período de maior aversão ao risco, essa diferença tende a crescer. Investidores podem concentrar esforços em programas estaduais e federais, nos quais há carteiras maiores e histórico regulatório mais conhecido.
Para evitar que a cautela reduza os investimentos em infraestrutura local, será necessário ampliar o apoio à estruturação, regionalizar serviços quando houver ganho de escala e fortalecer garantias de pagamento.
Não por acaso, 16,6% dos respondentes apontaram como prioridade a ampliação do apoio aos programas subnacionais de PPPs e concessões.
O apetite não desapareceu, mas ficou mais seletivo
Mesmo com a piora do sentimento, a pesquisa não descreve um mercado sem oportunidades. Saneamento lidera as intenções de investimento para os próximos três anos, citado por 50,4% dos participantes. Rodovias aparecem com 45,7%, ferrovias com 40,9% e energia elétrica com 35,7%.
Os números convergem com o estudo de perspectivas para 2025 a 2029 do BNDES. O banco estima que a infraestrutura represente cerca de 42% do investimento projetado nos 21 setores analisados, sustentada por concessões, PPPs, programas públicos e modernização de ativos.
Energia elétrica, rodovias, saneamento e telecomunicações concentram aproximadamente 80% do bloco de infraestrutura no cenário-base.
O contraste é relevante: há necessidade econômica, projetos e capital interessado, mas menor tolerância a modelagens frágeis. Isso desloca a competição. Em vez de disputar todo ativo disponível, empresas tendem a priorizar setores nos quais dominam os riscos, possuem capacidade operacional e conseguem estruturar financiamento com antecedência.
A continuidade dos investimentos em infraestrutura dependerá, portanto, da qualidade da seleção pública e privada dos projetos.
Para governos, a resposta não deveria ser aliviar indiscriminadamente as obrigações ou oferecer garantias excessivas. O caminho é reduzir riscos que o setor público controla: qualidade dos estudos, clareza regulatória, tratamento de passivos, previsibilidade de licenças, governança das decisões e disciplina no cumprimento do contrato.
O teste estará nos próximos leilões
A intensidade da desaceleração não será conhecida apenas pelo próximo Barômetro. Ela aparecerá em indicadores concretos: número de grupos habilitados, formação de consórcios, descontos oferecidos, valores de outorga, exigências de financiamento, prazo até o fechamento da dívida e quantidade de projetos adiados.
Também será preciso separar leilões bem-sucedidos de contratos financiáveis. Uma disputa competitiva confirma interesse pelo ativo, mas não garante que o vencedor conseguirá captar recursos nas condições previstas, executar os investimentos e sustentar os indicadores de desempenho durante todo o prazo.
Da mesma forma, o recorde de R$ 280,4 bilhões não elimina a insuficiência histórica do país. A Abdib estima que o Brasil precisaria adicionar cerca de R$ 225 bilhões por ano, durante uma década, ao nível atual para enfrentar o déficit acumulado.
Manter os investimentos em infraestrutura em patamar elevado exigirá tanto executar a carteira existente quanto repor continuamente os projetos que entram em operação.
A queda do otimismo é, assim, menos um anúncio de paralisação e mais um aviso sobre a próxima safra. O Brasil ainda possui contratos em execução, demanda reprimida e setores capazes de atrair capital. O desafio será provar que as novas concessões e PPPs conseguem absorver eleição, reforma tributária e choques externos sem transformar toda mudança de cenário em renegociação.
Se os próximos editais entregarem essa previsibilidade, a cautela poderá conviver com competição. Se não entregarem, o recorde de hoje poderá ocultar a redução dos investimentos em infraestrutura contratados para os anos seguintes.
















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