De 32 para cinco unidades: PPP de saúde de Jaboatão testa modelo municipal de atenção primária

A PPP de saúde de Jaboatão, estudada inicialmente para uma rede de 32 unidades, chegou ao edital com cinco USFs, R$ 36,6 milhões em obras e equipamentos e contrato de 19 anos. Escopo menor concentra o teste em pagamento por disponibilidade, indicadores de qualidade e garantias municipais.

PPP de saúde de Jaboatão com novas Unidades de Saúde da Família

A PPP de saúde de Jaboatão chegou à fase de licitação com um desenho bem mais concentrado do que o anunciado no início da estruturação. Em 2022, os estudos previam 32 unidades de atenção primária e uma Academia da Cidade. O edital definitivo reúne cinco Unidades de Saúde da Família (USFs), com capacidade estimada para atender 56 mil pessoas.

A redução não transforma o projeto em uma parceria irrelevante. Ela muda a pergunta que o contrato terá de responder. Em vez de testar de uma só vez uma transformação abrangente da rede municipal, Jaboatão dos Guararapes propõe um primeiro portfólio de unidades no qual a iniciativa privada ficará responsável pelas obras, pelos equipamentos e pelos serviços não assistenciais, enquanto consultas, enfermagem, medicamentos e decisões clínicas continuarão sob responsabilidade pública.

O valor estimado do contrato é de R$ 198,85 milhões, para um prazo de 19 anos. O investimento inicial indicado pelo BNDES é de R$ 36,6 milhões em construção e equipamentos. A licitação adota como critério o menor valor de contraprestação pública, com teto mensal de R$ 956.014,07, segundo o mecanismo de pagamento e a divulgação oficial do banco responsável pela estruturação.

A entrega dos envelopes foi marcada para 10 de agosto e a sessão pública, para 13 de agosto. Até 17 de agosto, porém, a ficha da contratação no Portal Nacional de Contratações Públicas permanecia sem resultado ou valor homologado. Por isso, ainda não é possível tratar oficialmente nenhuma empresa ou consórcio como vencedor.

PPP de saúde de Jaboatão foi redimensionada entre o estudo e o edital

O ponto de partida ajuda a dimensionar a mudança. Em fevereiro de 2022, o BNDES anunciou uma estruturação que poderia envolver 32 unidades básicas e uma Academia da Cidade, com R$ 150 milhões em investimentos privados nos primeiros anos e aproximadamente R$ 600 milhões em serviços não clínicos ao longo do contrato.

Na modelagem levada à concorrência, a carteira foi reduzida para cinco USFs. Os documentos oficiais examinados não atribuem essa alteração a uma causa única. A comparação mostra, contudo, que o processo de viabilidade transformou uma proposta de alcance sistêmico em um contrato focalizado, com menor volume inicial de obras e um conjunto delimitado de ativos.

Esse recorte importa porque o município possui escala metropolitana. Jaboatão tinha 644.037 habitantes no Censo de 2022, população estimada em 684.293 pessoas em 2025 e área de 258,7 quilômetros quadrados, segundo o IBGE. É o segundo município mais populoso de Pernambuco, atrás apenas do Recife.

Os 56 mil beneficiários projetados para a PPP de saúde de Jaboatão equivalem a pouco mais de 8% da população municipal estimada em 2025. Trata-se, portanto, de uma intervenção relevante para bairros específicos, mas não de uma transferência da rede de atenção primária como um todo.

O escopo menor pode tornar a implantação e o acompanhamento mais administráveis. Ao mesmo tempo, reduz a possibilidade de diluir custos fixos entre muitas unidades. A competição no leilão, o desconto oferecido sobre a contraprestação máxima e as condições de financiamento mostrarão se o tamanho final alcançou equilíbrio suficiente para atrair operadores.

O atendimento clínico continuará público

A PPP de saúde de Jaboatão é uma concessão administrativa de infraestrutura e serviços de apoio. A futura concessionária não substituirá médicos, enfermeiros nem demais profissionais responsáveis pela assistência. Também não fará a compra e a dispensação de medicamentos, atividades mantidas com o município e o Sistema Único de Saúde.

O parceiro privado assumirá demolição, construção, modernização e manutenção dos imóveis, além da gestão de serviços como limpeza e desinfecção, jardinagem, manutenção predial, engenharia e conservação de equipamentos médico-assistenciais, recepção, vigilância patrimonial e eletrônica, tecnologia da informação, telecomunicações, gestão de utilidades e manejo de resíduos de serviços de saúde.

Essa separação procura colocar sob um contrato de longo prazo as funções que condicionam o funcionamento físico das unidades, sem privatizar a prestação clínica. A população continuará acessando o serviço gratuitamente pelo SUS. O risco assistencial permanece com o poder público; o risco de manter edifícios, sistemas e serviços de apoio disponíveis passa a ser cobrado da concessionária.

É também nesse ponto que a proposta dialoga com outros modelos de infraestrutura social acompanhados pelo Hub PPP: o ativo só gera valor público quando a obra permanece funcional durante toda a vigência, e não apenas quando é inaugurada.

Duas unidades serão construídas e três, reconstruídas

O contrato abrange cinco endereços com portes diferentes. Jardim Muribeca I e II será uma unidade de porte 4, construída em terreno livre na PE-17. Vila Sotave e João de Deus terá porte 3 e também será implantada em área livre, na Avenida José da Câmara Vieira, em Prazeres.

As outras três exigem demolição total e reconstrução. Jardim Coqueiral será uma unidade de porte 3. Dois Carneiros Baixo e Quadros serão unidades de porte 2. No caso de Quadros, a intervenção ocorrerá no mesmo local de uma unidade em funcionamento, o que exigirá coordenação para preservar o atendimento durante a transição.

Os anexos registram situações fundiárias distintas. Há áreas com registro imobiliário, imóvel público em processo de abertura de matrícula e terrenos resultantes de desapropriações ainda em fase de registro. A minuta atribui ao município os riscos ligados à disponibilidade dos terrenos, a atrasos não causados pela concessionária e a vícios ocultos identificados nos dois primeiros anos.

Já a elaboração da solução de engenharia e o dimensionamento dos custos ficam com o parceiro privado. Os documentos apresentam referências de área que variam conforme o nível de detalhamento: o programa mínimo soma 2.252,4 metros quadrados de ambientes internos, o plano de negócios usa 3.560 metros quadrados e os projetos básicos chegam a 3.691,1 metros quadrados.

Os esclarecimentos determinam que cada licitante formule sua solução respeitando as áreas mínimas dos ambientes. Diferenças decorrentes do projeto escolhido não geram automaticamente reequilíbrio.

Esse é um dos principais riscos de implantação da PPP de saúde de Jaboatão. A proposta comercial precisa absorver a diferença entre referências preliminares e o projeto efetivamente executável, além das condições de cada terreno.

Pagamento começa por unidade entregue

A concessionária terá até 18 meses, contados da eficácia do contrato, para concluir todas as intervenções. A remuneração, porém, não precisa esperar a entrega conjunta das cinco USFs. Cada unidade poderá receber uma ordem de entrada em operação quando estiver pronta, e o pagamento será ajustado à parcela da infraestrutura efetivamente disponibilizada.

O mecanismo usa pesos diferentes para os portes. As duas unidades de porte 2 representam, juntas, 35,58% do fator operacional. As duas de porte 3 respondem por 40,88%, e a unidade de porte 4, por 23,54%. A soma das unidades liberadas define quanto da contraprestação poderá ser faturado.

O desenho cria incentivo para entregas antecipadas e evita que o município pague pela totalidade antes de receber todos os ativos. Também exige fiscalização da transição: uma unidade fisicamente concluída só deve entrar no cálculo depois de demonstrar as condições operacionais previstas no contrato.

Desempenho poderá afetar 49% da contraprestação

Depois de aplicado o fator das unidades em operação, a remuneração da PPP de saúde de Jaboatão terá uma parcela de 51% não submetida ao fator de desempenho e outra de 49% ajustada pelos resultados medidos. Nos primeiros 90 dias de operação, o fator será igual a um; depois disso, haverá consolidação trimestral das avaliações.

O índice combina 75% de qualidade e 25% de disponibilidade. O sistema inclui 19 indicadores relacionados, entre outros itens, à manutenção preventiva e corretiva, limpeza, conservação predial, equipamentos médicos, resposta a chamados, internet, câmeras, alarmes e satisfação de pacientes e profissionais.

Há ainda um indicador de recepção com meta de atendimento completo em até 25 minutos. Esse prazo não mede o tempo para consulta médica. Ele se refere ao processo de acolhimento e registro sob responsabilidade da concessionária, uma distinção necessária para não atribuir ao parceiro privado um resultado clínico que dependerá das equipes públicas.

Um verificador independente produzirá relatórios mensais e a consolidação trimestral. Pesquisas representativas deverão captar a percepção de usuários e profissionais. O desafio será assegurar que a medição não se limite ao preenchimento documental e consiga identificar indisponibilidades que afetem o atendimento real.

Garantia de pagamento combina recursos da saúde e FPM

Como a receita da concessionária virá principalmente do orçamento municipal, a qualidade das garantias é central para a financiabilidade. A PPP de saúde de Jaboatão prevê uma estrutura de contas vinculadas administrada por instituição financeira depositária.

O modelo direciona 8,98% dos recursos tributários municipais destinados ao Fundo Municipal de Saúde para uma conta vinculada ao pagamento. Além disso, 2,08% do Fundo de Participação dos Municípios será encaminhado a uma conta-reserva.

Essa reserva deverá alcançar o equivalente a três contraprestações mensais máximas. Sua formação ocorrerá ao longo de dez meses, com retenções mensais correspondentes a um décimo desse montante. A arquitetura procura criar previsibilidade para o pagamento ordinário e uma camada de proteção contra atrasos.

Ela não elimina o risco fiscal. Ao longo de 19 anos, a segurança dependerá do cumprimento do fluxo de vinculação, da saúde financeira do município, da correta operação das contas e da capacidade de recompor a reserva quando utilizada. Para financiadores, tão importante quanto a existência da garantia será sua execução sem interferência política ou operacional.

Edital atualizado exige leitura conjunta dos anexos

Os documentos da concorrência passaram por erratas e esclarecimentos até os dias anteriores à entrega das propostas. A quarta errata reduziu de 30% para 13% do valor estimado do contrato o patrimônio líquido mínimo exigido de consórcios. Para licitantes individuais, permaneceu a exigência de 10%.

Também há uma inconsistência aparente de redação em trechos do edital atualizado. O valor de R$ 11.472.168,85 aparece como teto anual em um item, mas é reproduzido como se fosse mensal em outro dispositivo e no modelo da carta de proposta.

O Anexo 9 determina que a contraprestação mensal máxima corresponde ao valor anual dividido por 12, e a divulgação oficial do BNDES informa o teto mensal de aproximadamente R$ 956 mil.

A errata publicada em 5 de agosto não corrigiu especificamente essa passagem. A leitura conjunta permite identificar a lógica econômica adotada, mas a divergência mostra por que licitantes precisam trabalhar com o conjunto integral de edital, anexos, erratas e respostas oficiais, e não com um dispositivo isolado.

Projeto testa a replicação de PPPs na atenção primária

O Brasil já possui precedentes de PPPs para unidades básicas. Belo Horizonte, por exemplo, estruturou uma parceria que entregou 40 centros de saúde e recebeu financiamento de R$ 180 milhões para as intervenções, com alcance estimado de aproximadamente 800 mil usuários.

A particularidade da PPP de saúde de Jaboatão está na escala final e em sua origem. O projeto foi estruturado pelo BNDES e pela IFC dentro de um programa voltado a apoiar municípios na modernização da atenção primária. O edital de cinco unidades pode funcionar como teste para contratos menores, desde que a competição demonstre que os custos de estruturação, financiamento, verificação e gestão são compatíveis com o tamanho do portfólio.

O êxito não deverá ser medido apenas pela assinatura. Será necessário acompanhar o número de propostas, o desconto sobre a contraprestação, o fechamento do financiamento, a regularização dos terrenos, a entrega das cinco unidades dentro do prazo e o comportamento dos indicadores durante a operação.

Também será importante observar se a separação entre serviços clínicos e não clínicos funcionará sem zonas de conflito. Problemas em sistemas de informática, recepção, limpeza ou manutenção podem afetar a assistência mesmo quando o atendimento médico permanece formalmente público. O contrato precisará definir com precisão quem responde, em quanto tempo e com qual consequência financeira.

A passagem de 32 para cinco unidades não deve ser lida automaticamente como fracasso nem como garantia de prudência. Ela revela o trabalho de transformar uma ambição ampla em um perímetro contratável.

A prova decisiva virá na operação: saber se um contrato municipal de escala contida consegue entregar infraestrutura disponível, qualidade verificável e pagamento sustentável durante 19 anos.

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