
A privatização da AySA colocou um grupo com participação brasileira à frente da disputa pela companhia responsável pelos serviços de água e esgoto em Buenos Aires e em 26 municípios da região metropolitana da capital argentina. O consórcio integrado por Rowing S.A., Arcos Saneamento e Participações S.A., Transclor S.A. e PHX Aqua AR BV apresentou proposta de US$ 340,2 milhões por 90% das ações da empresa estatal.
A Arcos é acionista da Equipav, grupo que controla a Aegea, uma das maiores operadoras privadas de saneamento do Brasil. A presença no consórcio aproxima o capital brasileiro de uma operação que atende milhões de pessoas e que, se formalizada, representará uma expansão internacional relevante para um grupo historicamente concentrado em infraestrutura no mercado brasileiro.
A abertura das ofertas econômicas não encerra, por si só, a privatização da AySA. A proposta de maior valor ainda precisa percorrer as etapas administrativas de avaliação e adjudicação pelo governo argentino. O próprio processo oficial caracteriza a abertura das ofertas como um novo marco da licitação, e não como a transferência automática do controle acionário. Esse ponto é essencial para diferenciar o resultado competitivo da conclusão efetiva da operação.
A oferta vencedora na etapa econômica superou os US$ 285 milhões apresentados pelo grupo concorrente. Segundo o Ministério da Economia da Argentina, a venda compreende os 90% do capital que pertencem ao Estado Nacional; os 10% restantes continuarão sob titularidade dos trabalhadores, por meio do Programa de Propriedade Participada.
Mais do que a compra de ações, a privatização da AySA envolve uma nova Concessão de longo prazo, compromissos de investimento e metas de cobertura. O futuro operador terá de assumir uma infraestrutura urbana complexa, com desafios de expansão, perdas de água, operação de redes antigas, pressão tarifária e necessidade de recuperar a capacidade de investimento em uma economia marcada por instabilidade cambial e regulatória.
Privatização da AySA entra em fase decisiva após oferta de US$ 340,2 milhões
A proposta de US$ 340,2 milhões foi apresentada na segunda etapa da licitação pública nacional e internacional organizada pelo governo argentino. A primeira fase examinou a capacidade técnica, econômico-financeira e jurídica dos participantes. Apenas os consórcios considerados habilitados puderam acessar a etapa de ofertas econômicas.
No caso da privatização da AySA, o critério de preço teve papel determinante na etapa final da concorrência. O consórcio com participação da Arcos apresentou valor superior ao grupo liderado pela Roggio, que ofertou US$ 285 milhões. A diferença de US$ 55,2 milhões coloca o primeiro grupo em posição preferencial, desde que não haja impedimento na análise conclusiva do processo.
A Resolução 1.722/2026 do Ministério da Economia argentino registra a admissão dos dois grupos à fase econômica e identifica a composição de cada consórcio. O documento confirma a presença da Arcos Saneamento e Participações ao lado de Rowing, Transclor e PHX Aqua AR BV.
A estrutura societária e operacional do grupo ajuda a explicar o interesse argentino em reunir diferentes competências. Rowing atua em engenharia; Transclor possui experiência ligada ao fornecimento de insumos químicos para o setor; a PHX Aqua tem base nos Países Baixos; e a Arcos traz ao consórcio a conexão com a experiência da Equipav e da Aegea em saneamento no Brasil.
A privatização da AySA foi desenhada para selecionar um operador estratégico, e não apenas um investidor financeiro. Essa característica amplia a importância da capacidade de operar sistemas de água e esgoto, mobilizar investimentos, gerir contratos de longo prazo e cumprir metas regulatórias. Em ativos urbanos dessa escala, a compra das ações é apenas o ponto de entrada em uma relação contratual que exigirá resultados operacionais por décadas.
Privatização da AySA mantém 10% das ações com os trabalhadores
O desenho da operação preserva 10% do capital da companhia com os trabalhadores, mantendo o Programa de Propriedade Participada já existente. Os outros 90% correspondem à participação do Estado Nacional que está sendo transferida ao setor privado.
Essa composição foi definida no marco da privatização da AySA autorizada pelo Decreto 494/2025. A norma estabeleceu a venda da participação estatal e atribuiu ao Ministério da Economia a responsabilidade de conduzir o processo, com apoio da estrutura criada para a transformação de empresas públicas.
A transferência não deve ser interpretada como uma simples alienação de ativos. A AySA opera um serviço público essencial, com impacto direto na saúde, no ambiente urbano, no desenvolvimento imobiliário e na atividade econômica de Buenos Aires e de sua região metropolitana. Por isso, a mudança de controle está associada a um contrato de Concessão e a obrigações de investimento que serão monitoradas ao longo do tempo.
Para o governo argentino, a privatização da AySA é parte de uma agenda mais ampla de redução da presença estatal direta na operação de empresas. A justificativa oficial se apoia na necessidade de mobilizar capital privado para financiar a expansão e modernização da infraestrutura, em um contexto de restrição fiscal e de necessidade de recompor a capacidade de investimento.
Privatização da AySA transfere operação estratégica de água e esgoto
A AySA fornece água potável a mais de 11 milhões de pessoas e serviços de esgotamento sanitário a mais de 9 milhões. Sua área de atuação reúne a Cidade Autônoma de Buenos Aires e 26 municípios do entorno, formando uma das maiores operações urbanas de saneamento da América Latina.
A escala explica por que a privatização da AySA atraiu interesse de empresas locais e de grupos com experiência em infraestrutura. Sistemas metropolitanos de água e esgoto exigem gestão integrada de captação, produção, adução, distribuição, coleta, tratamento, manutenção de redes, atendimento ao usuário e gestão comercial.
A companhia também carrega um histórico institucional complexo. O serviço foi operado por grupo privado nos anos 1990 e retornou à gestão estatal em 2006. Desde então, a empresa ampliou parte de sua infraestrutura, mas permaneceu dependente de transferências públicas e enfrentou desafios ligados à cobertura desigual, perdas de água e manutenção de ativos.
Dados divulgados pelo governo argentino apontam que a empresa recebeu mais de US$ 13,4 bilhões em transferências do Tesouro entre 2006 e 2023. A leitura oficial é de que esse modelo não seria suficiente para financiar os investimentos necessários à universalização e à modernização do serviço.
A privatização da AySA, nesse sentido, é uma resposta de política pública a um problema de financiamento e gestão. Mas o sucesso da operação não será medido apenas pelo valor pago pelas ações. O resultado dependerá de como a nova Concessão equacionará investimento, qualidade de serviço, tarifas, metas de cobertura e fiscalização.
Privatização da AySA terá Concessão de 30 anos
O futuro operador deverá atuar sob uma Concessão inicial de 30 anos, com possibilidade de prorrogação por mais dez anos. O prazo dá ao grupo selecionado horizonte suficiente para planejar investimentos de grande porte, mas também exige uma regulação capaz de acompanhar a execução durante todo o ciclo contratual.
A privatização da AySA inclui metas de cobertura para água e esgoto. Ao final dos 30 anos iniciais, o contrato estabelece patamares mínimos de 90% da população da área de Concessão atendida por água e 75% por rede de esgoto. A existência de objetivos de longo prazo é relevante porque desloca a discussão do valor da aquisição para a qualidade da entrega futura.
Nos primeiros cinco anos, o contrato prevê um Plano de Ação obrigatório, referente ao período de 2027 a 2031. A previsão oficial é de investimentos de 2,89 trilhões de pesos argentinos, a valores de dezembro de 2025 e sem incidência de IVA, em obras, manutenção, melhorias e operação do sistema. O governo argentino associa esse programa a investimentos superiores a US$ 2 bilhões.
Esses números mostram que a privatização da AySA não se limita ao desembolso de US$ 340,2 milhões pela participação acionária. O valor da oferta funciona como preço de entrada, enquanto a maior parte do compromisso econômico estará na execução das obrigações contratuais e na operação de uma rede de grande porte.
Privatização da AySA prevê fiscalização anual e auditoria independente
A fiscalização das obrigações deverá ser conduzida pelo Ente Regulador de Água e Saneamento, o Eras. O modelo prevê acompanhamento anual e certificação dos investimentos por auditor técnico independente, além de multas e possibilidade de perda da Concessão em situações de descumprimento grave e reiterado.
Na prática, a privatização da AySA dependerá de uma governança regulatória que consiga verificar não apenas o volume de recursos aplicados, mas a efetividade das obras e a qualidade do serviço entregue à população. É esse controle que reduz o risco de uma operação de grande escala se concentrar apenas em resultados financeiros, sem produzir a expansão prometida da infraestrutura.
A definição de auditoria técnica independente é especialmente importante em saneamento. Obras enterradas, redes extensas, intervenções em áreas densamente ocupadas e manutenção de ativos exigem indicadores que vão além da inauguração de empreendimentos. O acompanhamento deve incluir continuidade do abastecimento, qualidade da água, perdas, atendimento, eficiência energética, regularidade do tratamento e evolução das ligações de esgoto.
Privatização da AySA leva a Equipav a uma operação inédita fora do Brasil
A presença da Arcos no consórcio cria uma conexão direta com a Equipav, controladora da Aegea. O grupo brasileiro construiu sua posição no saneamento a partir do mercado doméstico, com participação em Concessões municipais, estaduais e regionais. Uma eventual conclusão da operação argentina representaria uma expansão internacional inédita nessa escala para a estrutura ligada à Equipav.
A privatização da AySA também aproxima duas realidades distintas. No Brasil, o setor de saneamento vem passando por uma fase de reorganização a partir do marco legal, com maior participação de operadores privados, blocos regionais e novos contratos de Concessão. Na Argentina, o processo nasce de uma política de privatização federal, voltada à transferência do controle de uma empresa pública de grande porte.
A experiência brasileira pode contribuir na operação de contratos complexos, na expansão de redes e na gestão de indicadores regulatórios. Contudo, a experiência por si só não elimina os riscos do novo mercado. A Argentina tem histórico de volatilidade macroeconômica, inflação elevada, mudanças regulatórias e disputas sobre tarifas de serviços públicos.
Esse contexto torna a privatização da AySA uma operação que exige disciplina financeira e atenção permanente à governança contratual. O retorno não dependerá apenas do crescimento do número de usuários ou da eficiência operacional. Será influenciado pela evolução tarifária, pelo câmbio, pela capacidade de executar obras, pela relação com o regulador e pela previsibilidade das regras do setor.
A entrada em Buenos Aires também coloca a Equipav em uma posição de maior exposição regional. O grupo já possui atuação diversificada em infraestrutura, incluindo saneamento, rodovias e irrigação. Na frente de saneamento, a principal participação está na Aegea, que atende dezenas de milhões de pessoas em centenas de municípios brasileiros, conforme informações corporativas da Equipav.
Privatização da AySA ocorre em momento de maior competição no saneamento
A disputa argentina ocorre em um momento em que os grupos de saneamento avaliam oportunidades dentro e fora do Brasil. O mercado brasileiro continua demandando investimentos relevantes para universalizar água e esgoto, mas a competição por ativos estruturados aumentou e os projetos têm exigido forte capacidade financeira.
A privatização da AySA oferece uma combinação incomum: uma base de usuários muito ampla, uma infraestrutura com necessidade relevante de modernização e um contrato de longo prazo. Essa combinação cria potencial de ganho de escala, mas também impõe obrigações operacionais que não podem ser subestimadas.
Para investidores e financiadores, a atratividade do ativo dependerá da relação entre preço de aquisição, plano de investimentos, estrutura tarifária e risco regulatório. O valor oferecido pelo consórcio foi inferior às estimativas de arrecadação que circularam antes da etapa econômica, o que indica uma leitura cautelosa dos participantes sobre os desafios do ativo.
A modelagem busca responder a esse risco ao prever metas graduais e investimentos obrigatórios. Ainda assim, o teste real da privatização da AySA começará após a adjudicação e a transferência de controle, quando o consórcio terá de transformar compromissos contratuais em melhoria concreta dos serviços.
Privatização da AySA será referência para o setor de Concessões na região
A operação merece acompanhamento porque reúne elementos que têm aparecido em projetos de infraestrutura em toda a América Latina: necessidade de investimento elevado, restrições fiscais do Estado, demanda por operadores especializados e preocupação com a sustentabilidade de contratos de longo prazo.
A privatização da AySA evidencia que a participação privada no saneamento depende de um equilíbrio delicado. O concessionário precisa de regras que deem previsibilidade à recuperação de investimentos. O poder público precisa de instrumentos para assegurar tarifas socialmente viáveis, metas de expansão e qualidade de atendimento. E o regulador precisa de autonomia técnica para fiscalizar ambos.
Esse debate também dialoga com o cenário brasileiro. A ampliação da presença privada no saneamento, por meio de PPPs e Concessões, tem exigido modelagens capazes de combinar escala, bancabilidade e objetivos de universalização. Projetos recentes, como a nova modelagem da PPP da Cagece, mostram como risco, investimento e remuneração precisam estar adequadamente distribuídos para atrair operadores e assegurar execução ao longo do prazo contratual.
No caso argentino, a privatização da AySA será observada também pela sua capacidade de gerar resultados em uma região metropolitana de alta densidade. A melhoria da cobertura de água e esgoto, a redução de perdas, a modernização dos sistemas e o atendimento à população serão os indicadores que definirão se a transferência de controle alcançou o objetivo anunciado pelo governo.
A abertura das ofertas econômicas colocou o consórcio com participação da Arcos em vantagem. A formalização da adjudicação, a assinatura da nova Concessão e a divulgação dos instrumentos operacionais serão os próximos marcos para confirmar o alcance da operação. Até lá, a privatização da AySA segue como um processo em fase decisiva, com potencial para reposicionar a presença de grupos brasileiros no saneamento regional.















