Obras da Sabesp devem alcançar 3,2 mil frentes em junho de 2027

Companhia projeta mais do que dobrar o número de intervenções simultâneas e mantém R$ 40,5 bilhões em investimentos contratados até 2029. O desafio será transformar o volume de obras em ligações efetivas, esgoto tratado e melhora verificável dos rios, sem perder controle sobre segurança, trânsito e qualidade da recomposição urbana.
Obras da Sabesp ampliam redes de esgoto para recuperar os rios Tietê e Pinheiros

As obras da Sabesp devem atingir o ponto mais intenso em junho de 2027, quando a companhia prevê manter cerca de 3,2 mil frentes em atividade simultânea no estado de São Paulo. O número representa mais do que o dobro das aproximadamente 1,5 mil intervenções registradas em 2026 e dimensiona a escala do esforço para antecipar a universalização dos serviços de água e esgoto para 2029.

O pico projetado vai muito além de uma estatística de engenharia. Colocar milhares de equipes nas ruas ao mesmo tempo exige coordenar projetos, licenças, fornecedores, escavações, interferências subterrâneas, desvios de trânsito e recomposição de pavimentos em centenas de municípios. Também impõe uma pergunta decisiva: quanto dessa infraestrutura será convertido em novas ligações domiciliares, coleta efetiva, capacidade de tratamento e melhora ambiental dos cursos d’água?

No primeiro semestre de 2026, a Sabesp investiu R$ 7,46 bilhões, crescimento de 15,6% em relação ao mesmo período de 2025. Desse total, R$ 5,17 bilhões foram destinados a esgotamento sanitário e R$ 2,29 bilhões ao abastecimento de água. A meta informada pela empresa é aplicar aproximadamente R$ 20 bilhões no ano. Já a carteira contratada para o período entre julho de 2026 e 2029 alcançava R$ 40,5 bilhões, conforme a apresentação oficial dos resultados do segundo trimestre.

Esses valores colocam a execução física no centro do debate sobre a transformação da companhia após a desestatização. Para o mercado de infraestrutura acompanhado pelo Hub PPP, a questão relevante já não é apenas a disponibilidade de capital. É a capacidade de entregar uma carteira dessa dimensão dentro do prazo, com qualidade operacional e efeitos que possam ser comprovados município por município.

Obras da Sabesp entram no teste decisivo da universalização

A legislação federal estabelece que os contratos de saneamento devem buscar atendimento de 99% da população com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto até 31 de dezembro de 2033. Em São Paulo, o contrato firmado depois da desestatização encurtou esse horizonte para 2029, aumentando a necessidade de concentrar investimentos, contratar capacidade produtiva e acelerar decisões que, em condições normais, seriam distribuídas por um período maior.

A Sabesp informa atender 376 municípios, com serviços de água para 30,7 milhões de pessoas e coleta de esgoto para 27,8 milhões. Dentro desse universo, 371 municípios integram a Unidade Regional de Serviços de Abastecimento de Água Potável e Esgotamento Sanitário do Sudeste, a URAE 1. O contrato de concessão da URAE 1 entrou em vigor em 23 de julho de 2024, tem a Arsesp como interveniente anuente e se estende até outubro de 2060.

O prazo longo da concessão não reduz a pressão dos próximos três anos. A universalização antecipada concentra obrigações na fase inicial do contrato e transforma 2027 em um período crítico. Um atraso relevante em projetos de interceptores, estações elevatórias, redes coletoras ou ampliações de estações de tratamento pode afetar a sequência de entregas e deixar pouco espaço para recuperação antes de 2029.

Também existe uma diferença importante entre construir rede e universalizar o serviço. Uma tubulação concluída só produz resultado quando está conectada aos imóveis, recebe o esgoto, encaminha o volume coletado e encontra capacidade disponível para tratamento. Nas áreas informais ou rurais, a solução pode depender de regularização, obras internas nos imóveis, sistemas descentralizados e coordenação com outros órgãos públicos. Por isso, o acompanhamento das obras da Sabesp precisará avançar da medição física para a verificação do serviço efetivamente prestado.

R$ 40,5 bilhões mudam a escala das obras da Sabesp

Uma carteira contratada oferece mais previsibilidade do que um simples plano de investimentos. Significa que parte relevante dos projetos já percorreu etapas de contratação e pode ser mobilizada. Entretanto, o volume de R$ 40,5 bilhões não equivale a obras concluídas nem elimina riscos de prazo, produtividade, licenciamento e disponibilidade de mão de obra.

O primeiro semestre de 2026 ilustra o tamanho da aceleração necessária. Se a meta anual de aproximadamente R$ 20 bilhões for mantida, a companhia terá de executar perto de R$ 12,5 bilhões entre julho e dezembro. É uma estimativa obtida pela diferença entre a previsão anual e os R$ 7,46 bilhões realizados até junho, e não uma projeção trimestral divulgada pela empresa. Ainda assim, o cálculo mostra por que a própria Sabesp espera uma atividade mais forte no segundo semestre e um número muito maior de frentes em 2027.

O desafio não está apenas no caixa. Contratos de grande escala dependem da capacidade financeira e operacional das construtoras, do fornecimento de tubos, bombas e equipamentos eletromecânicos, da elaboração de projetos executivos e da disponibilidade de profissionais qualificados. Uma mesma empresa contratada pode participar de diferentes lotes, criando risco de concentração. Municípios vizinhos podem disputar recursos semelhantes no mesmo período.

Para reduzir essa exposição, as obras da Sabesp precisam de acompanhamento por lote, região e etapa. O total investido é importante para investidores e órgãos públicos, mas não revela sozinho se uma intervenção crítica está atrasada ou se determinado município permanece distante de sua meta. Transparência sobre cronogramas, ligações ativadas, capacidade adicional de tratamento e causas de atraso permitirá separar crescimento contábil do investimento de avanço concreto na universalização.

Integra Tietê concentra parte das obras da Sabesp

O programa Integra Tietê é uma das principais frentes dessa expansão. No segundo trimestre de 2026, a companhia informou entregas de 69 quilômetros de coletores, emissários e interceptores, além de 52 quilômetros de redes coletoras. Também registrou avanços nas estações de tratamento Parque Novo Mundo, Bonsucesso, Várzea do Palácio e São João, além de modernizações nas unidades de Barueri e São Miguel.

Outro conjunto de contratos, estimado em R$ 2,7 bilhões, inclui projetos capazes de acrescentar 372 quilômetros de redes de esgoto, 104 estações elevatórias, 13,5 mil ligações e ampliações de estações de tratamento. Na divulgação do segundo trimestre, dois projetos estavam em execução, 15 contratados e dois em contratação.

Entre as intervenções previstas está um sifão subterrâneo que deverá conduzir esgoto de três municípios para a Estação de Tratamento de Esgoto de Barueri. A estrutura terá aproximadamente 120 metros de extensão, passará a cerca de 30 metros de profundidade e deverá beneficiar 84 mil pessoas. A conclusão está prevista para abril de 2027, com investimento estimado em R$ 21,5 milhões.

O sifão ajuda a explicar por que determinadas entregas têm relevância superior ao seu comprimento. Em sistemas metropolitanos, um trecho curto pode eliminar um gargalo e permitir que redes construídas em diferentes cidades passem a enviar o esgoto para tratamento. O valor público da obra não está nos 120 metros escavados, mas no volume que deixa de alcançar córregos e rios sem tratamento.

Revitalização dos rios exige medir o resultado, não a promessa

A expansão do sistema de esgotamento está associada à expectativa de recuperação dos rios Tietê e Pinheiros e de seus afluentes. Essa relação existe, mas não é automática. A implantação de coletores e interceptores reduz lançamentos apenas quando as conexões são feitas, o sistema permanece operacional e as estações conseguem tratar a vazão recebida dentro dos padrões ambientais.

Em Guarulhos, por exemplo, apenas 3% do esgoto era tratado em 2019. O índice atual informado é de aproximadamente 40%, com previsão de superar 70% em 2027. A mudança é expressiva, sobretudo em um município que historicamente representou uma das maiores lacunas do sistema metropolitano. Ainda assim, o dado também mostra a distância entre uma melhora relevante e a universalização completa.

Por isso, comunicar que as obras da Sabesp resultarão em “rios revitalizados” exige cuidado. O saneamento reduz a carga orgânica e melhora a qualidade da água, mas a condição dos rios também é influenciada por ocupação das margens, drenagem urbana, resíduos sólidos, poluição difusa e lançamentos industriais. O resultado deve ser acompanhado por indicadores de qualidade da água e por medições nos afluentes, e não apenas pelo número de tubulações instaladas.

Uma prestação de contas consistente sobre as obras da Sabesp deveria permitir acompanhar a sequência completa: rede disponível, imóvel conectado, esgoto coletado, volume transportado, tratamento realizado e qualidade do efluente lançado. Quando um desses elos falha, a obra pode aparecer como concluída sem produzir integralmente o benefício ambiental esperado.

ETE ABC mostra como tecnologia pode ampliar a infraestrutura existente

Nem toda expansão depende da construção de uma nova estação. A Sabesp aplica cerca de R$ 250 milhões na ampliação e na modernização da Estação de Tratamento de Esgoto ABC, que atende Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá e parte da capital paulista. A conclusão está prevista para o primeiro semestre de 2028.

O projeto deverá elevar de 1,4 milhão para 3 milhões o número de pessoas potencialmente atendidas pela unidade. Além da expansão física, a estação recebe um sistema de inteligência artificial para ajustar o funcionamento dos sopradores utilizados nos tanques de aeração. Esse processo representa aproximadamente 70% do consumo de energia da planta, o que abre espaço para reduzir custos operacionais e utilizar com maior eficiência a capacidade instalada.

A experiência é relevante porque antecipa uma questão que permanecerá depois de 2029. Universalizar não significa apenas construir ativos; significa operá-los de forma contínua durante décadas. Estações maiores elevam a demanda por energia, manutenção, insumos e equipes técnicas. Soluções digitais podem melhorar a eficiência, mas precisam demonstrar confiabilidade, segurança e economia mensurável.

No caso das obras da Sabesp, a modernização de unidades existentes também pode oferecer ganhos mais rápidos do que projetos integralmente novos. A avaliação deve considerar o custo por habitante atendido, o aumento da vazão tratada, a qualidade do efluente e a redução do consumo energético, evitando que a inovação seja tratada como objetivo independente do desempenho do serviço.

Pico de 3,2 mil frentes eleva o risco operacional nas ruas

Mais de três mil obras simultâneas significam milhares de escavações próximas a redes de gás, energia, telecomunicações e drenagem. Também significam alterações no trânsito, ruído, poeira, interrupções temporárias e necessidade de recompor ruas e calçadas. A capacidade de administrar essas externalidades será tão importante para a percepção pública quanto o volume investido.

A própria Sabesp informou, em seus resultados do segundo trimestre, que ampliou de um para três metros a zona de atenção nas escavações, reforçou a verificação de gases no subsolo, tornou obrigatório o uso de radar de penetração no solo em toda a área de atenção e triplicou o número de fiscais de campo. A companhia também passou a exigir treinamento e certificação, adotou supervisão proporcional ao risco e criou uma diretoria de segurança operacional ligada à presidência.

As medidas respondem ao aumento da exposição criado pelo programa de investimentos. O salto das obras da Sabesp não pode ser sustentado apenas pela multiplicação das equipes. Precisa ser acompanhado por projetos confiáveis sobre as interferências existentes, fiscalização das contratadas, protocolos de paralisação e comunicação rápida com os responsáveis por outras redes.

A recomposição do espaço urbano será outro ponto sensível. Uma rede de saneamento pode funcionar adequadamente e, ao mesmo tempo, deixar pavimento irregular, calçadas danificadas ou sinalização insuficiente. A URAE 1 já mantém regras regulatórias relacionadas ao indicador de conformidade da execução da recomposição do pavimento. Com o aumento das frentes, esse indicador ganha importância para que o custo da aceleração não seja transferido aos municípios e usuários na forma de vias deterioradas.

Regulação precisa impedir que médias escondam desigualdades

A partir de 2027, as metas de universalização deverão ser observadas por município. Em 2028, o controle deverá considerar também recortes entre áreas formais, informais e rurais. Essa mudança é necessária porque uma média regional elevada pode esconder bairros ou localidades com atendimento muito inferior.

Uma companhia pode ampliar rapidamente a cobertura em áreas densas, onde cada quilômetro de rede atende mais imóveis, e ainda assim avançar lentamente em regiões rurais ou assentamentos precários. A aferição desagregada reduz esse risco e direciona o debate para quem ainda não recebe o serviço.

No modelo regulatório da concessão, o Fator U está associado à universalização e o Fator Q à qualidade. Ambos integram os mecanismos que influenciam o cálculo tarifário, conforme o anexo regulatório do contrato. A verificação independente e a decisão administrativa da Arsesp são essenciais para conferir credibilidade aos resultados divulgados pela própria operadora.

Isso altera a leitura das obras da Sabesp. O volume físico continua relevante, mas o cumprimento contratual dependerá dos indicadores previstos e da validação regulatória. Não basta afirmar que uma cidade recebeu investimentos; será preciso demonstrar cobertura, continuidade, qualidade e atendimento dos grupos considerados no contrato.

Pressão financeira cresce junto com o ritmo de execução

O aumento dos investimentos também modifica a estrutura financeira da companhia. Ao fim do segundo trimestre de 2026, a Sabesp registrava dívida bruta de R$ 51,7 bilhões, caixa de R$ 17,4 bilhões e dívida líquida de R$ 34,2 bilhões. A empresa informa que 64% da dívida tem vencimento a partir de 2031, o que reduz a concentração de pagamentos durante a fase mais intensa das entregas.

Esses números não indicam, isoladamente, desequilíbrio. Projetos de saneamento têm vida útil longa e normalmente utilizam financiamento para distribuir o custo ao longo do tempo. No financiamento das obras da Sabesp, o ponto de atenção é a correspondência entre endividamento, avanço físico, entrada dos ativos em operação e geração de caixa.

Se os desembolsos ocorrerem antes das licenças, conexões ou comissionamento, o capital permanece imobilizado sem produzir integralmente a receita e o benefício previstos. Se a pressa elevar custos ou retrabalho, a eficiência do plano diminui. A qualidade da gestão do portfólio será determinante para que o pico de 2027 não se converta em uma sequência de aditivos e reprogramações.

Também será necessário manter equilíbrio entre modicidade tarifária e capacidade de financiamento. Os mecanismos regulatórios devem reconhecer investimentos eficientes e, ao mesmo tempo, proteger o usuário de custos que não se traduzam em serviço. Essa é uma das razões pelas quais a publicidade dos indicadores e das decisões da Arsesp importa tanto quanto a divulgação dos bilhões contratados.

Junho de 2027 será um marco intermediário, não a linha de chegada

O mês escolhido para o pico das obras da Sabesp funciona como referência operacional, mas não deve ser confundido com resultado final. Intervenções iniciadas ou em andamento ainda precisarão ser concluídas, testadas, conectadas e incorporadas à rotina de operação. Algumas das entregas mais relevantes, como a ampliação da ETE ABC, estão previstas para 2028.

Até 2029, o desempenho deverá ser medido pela redução das lacunas de atendimento e pela capacidade de manter o serviço. A divulgação oficial do segundo trimestre de 2026 mostra que a companhia já elevou o investimento, mas a etapa mais complexa ainda está à frente: executar simultaneamente em grande escala sem relaxar controles técnicos, urbanos e ambientais.

O cronograma cria uma oportunidade relevante para São Paulo antecipar em quatro anos os objetivos nacionais estabelecidos pelo Marco Legal do Saneamento. Ao mesmo tempo, expõe o contrato a um teste visível. Quanto maior o número de frentes, maior será a cobrança sobre acidentes, atrasos, transtornos e qualidade da entrega.

O verdadeiro indicador de sucesso das obras da Sabesp não será alcançar 3,2 mil canteiros em junho de 2027. Será reduzir o número de pessoas sem água segura e esgotamento adequado, elevar o volume efetivamente tratado, melhorar os rios e entregar vias recompostas com segurança. A escala impressiona, mas é o resultado verificado que determinará se a aceleração cumpriu a promessa da universalização.

Compartilhe essa notícia