Energias renováveis: ENGIE projeta retomada de investimentos em até cinco anos

Decisões sobre novos parques eólicos e solares estão suspensas e dependem do crescimento do consumo, da queda dos juros e da ampliação da infraestrutura de transmissão e armazenamento.
Parque eólico e painéis solares representam a possível retomada dos investimentos em energias renováveis no Brasil.

A ENGIE Brasil Energia estima que novos investimentos em energias renováveis poderão voltar a avançar em um horizonte de quatro a cinco anos, caso a economia brasileira cresça e aumente a demanda por eletricidade. A projeção indica uma possível retomada entre 2030 e 2031, mas não representa um cronograma de obras nem uma decisão já aprovada pela companhia.

Segundo o diretor-presidente da empresa, Eduardo Sattamini, as decisões de investimento em novos projetos de energias renováveis permanecem paralisadas. A ENGIE, contudo, continua desenvolvendo sua carteira para responder quando o mercado voltar a exigir capacidade adicional. Além do consumo, a empresa considera a trajetória dos juros e as condições operativas do sistema fatores determinantes para um novo ciclo de energias renováveis.

Energias renováveis dependem do crescimento da demanda

A construção de um projeto de energias renováveis começa anos antes da entrada em operação. O desenvolvedor precisa obter área, licenciamento, outorga, parecer de acesso à rede, contratos de equipamentos e financiamento. Também deve encontrar compradores para a energia ou assumir exposição aos preços do mercado. Quando existe capacidade instalada suficiente para atender ao consumo projetado, a contratação de novas usinas tende a perder velocidade.

Essa relação explica por que o crescimento da demanda ocupa o centro da previsão da ENGIE. Projetos de energias renováveis exigem investimentos concentrados na implantação e recuperados ao longo de contratos extensos. Sem perspectiva de consumo adicional, os preços negociados podem não remunerar adequadamente a construção, o custo do capital, os encargos de conexão e os riscos de restrição da geração.

O cenário oficial prevê aumento do uso de eletricidade, embora a velocidade possa variar. O Caderno de Demanda de Eletricidade do Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, elaborado pelo Ministério de Minas e Energia e pela Empresa de Pesquisa Energética, estima crescimento médio de 3,3% ao ano no cenário de referência. O consumo total chegaria a 939 terawatts-hora em 2035.

O mesmo estudo trabalha com mais de uma trajetória. No cenário inferior, o consumo alcançaria 872 terawatts-hora em 2035, com expansão média anual de 2,7%. No cenário superior, poderia chegar a 1.118 terawatts-hora, com alta de 5% ao ano. A diferença entre essas projeções altera o volume e o momento em que o país precisará contratar mais energias renováveis.

Comércio, serviços, residências e indústria continuam entre os componentes tradicionais da carga. O planejamento também passou a considerar data centers, produção de hidrogênio por eletrólise e eletromobilidade. Dependendo da implantação, essas cargas poderão modificar o perfil do consumo, a localização da demanda e o espaço para energias renováveis. Como os empreendimentos dependem de decisões empresariais, acesso à rede e licenças, o consumo não deve ser tratado como certo antes dos compromissos formais.

Oferta, consumo e horário de geração precisam convergir

O volume anual consumido não é a única variável. O sistema elétrico precisa equilibrar geração e carga continuamente, em diferentes regiões e horários. A expansão das energias renováveis acrescentou grandes volumes de produção variável, principalmente solar durante o dia e eólica conforme a disponibilidade dos ventos. Essa energia nem sempre coincide com o momento em que o consumo alcança seus maiores níveis.

Sattamini descreveu o quadro como excesso de energia no horário errado. A referência está ligada à concentração da produção fotovoltaica nas horas de maior radiação e à elevação da carga no fim da tarde e à noite, quando a geração solar recua. O problema não significa falta de utilidade da fonte, mas necessidade de coordenar expansão, flexibilidade e perfil de consumo.

Há ainda uma diferença geográfica. Uma parcela expressiva dos parques eólicos e solares de grande porte foi instalada no Nordeste, região com recursos naturais favoráveis. Os principais centros de carga permanecem concentrados no Sudeste e no Sul. Para que essas energias renováveis cheguem aos consumidores, o Sistema Interligado Nacional precisa dispor de capacidade de transmissão entre as áreas produtoras e consumidoras.

Quando a oferta supera temporariamente o consumo ou a rede não consegue transportar toda a produção, o Operador Nacional do Sistema Elétrico pode determinar a redução de usinas. A medida também pode ser necessária para preservar a segurança elétrica após indisponibilidades ou diante de limites técnicos. Esses comandos são conhecidos como cortes de geração ou curtailment.

O desafio, portanto, reúne três dimensões. A primeira é energética: quanto o país consome ao longo do ano. A segunda é temporal: em quais horas a eletricidade é produzida e demandada. A terceira é locacional: onde estão geração, rede e carga. Novas energias renováveis tornam-se mais viáveis quando essas dimensões são consideradas em conjunto nos estudos e contratos.

Cortes de geração alteram receitas e financiamentos

O curtailment ganhou relevância porque uma usina pode estar tecnicamente disponível e ter vento ou sol, mas receber ordem para reduzir a produção. Nesse período, o ativo deixa de converter parte do recurso natural em energia comercializável. A frequência, a duração e a causa dos cortes influenciam o resultado econômico de projetos de energias renováveis.

Nem toda restrição de energias renováveis recebe o mesmo tratamento comercial ou regulatório. A classificação pode considerar razões de confiabilidade, limitações externas às instalações, indisponibilidades ou excesso de geração em relação à carga. A cobertura de perdas depende das regras aplicáveis, do contrato e do enquadramento de cada evento. Consequentemente, o corte físico não se transforma automaticamente em ressarcimento integral ao gerador.

Para financiadores e investidores, a incerteza afeta a estimativa de energia vendável. Um parque projetado para produzir determinado volume pode registrar receita inferior se os cortes forem recorrentes. O modelo financeiro precisa incorporar cenários de restrição, condições contratuais, garantias e capacidade de pagamento da dívida. Quanto maior a incerteza, maior tende a ser a exigência de proteção na estrutura do projeto.

A situação também influencia novos contratos de compra e venda de energia. Compradores avaliam preço, prazo, fonte, perfil horário e garantias de entrega. Geradores, por sua vez, precisam compatibilizar a produção esperada com os compromissos assumidos. A simples existência de potencial eólico ou solar não basta para sustentar outra rodada de energias renováveis se o acesso à rede e o escoamento continuarem limitados.

Obras de rede podem aliviar restrições de escoamento, mas não resolvem sozinhas períodos de baixa carga. Armazenamento pode deslocar energia entre horários, mas sua localização e duração precisam corresponder à necessidade do sistema. Resposta da demanda pode induzir consumo em momentos de maior oferta. O planejamento das energias renováveis passa, assim, a depender de um conjunto mais amplo de ativos e sinais econômicos.

Transmissão conecta a produção aos centros de carga

A ENGIE apontou os leilões de transmissão como uma das medidas necessárias para integrar energias renováveis e enfrentar o desencontro geográfico. Nesses certames, empresas disputam concessões para construir e operar linhas e subestações. A remuneração ocorre por meio da Receita Anual Permitida, vinculada à disponibilidade das instalações, e não à quantidade de energia transportada em cada período.

Os projetos de transmissão possuem ciclos próprios de estudos, licenciamento, contratação e construção. Uma linha de grande porte pode demandar anos entre o planejamento e a operação. Se parques de energias renováveis entram antes dos reforços previstos, a região pode acumular capacidade de geração superior ao limite de transferência. O sincronismo entre os cronogramas reduz esse descompasso.

Um dos projetos planejados para ampliar o intercâmbio é o corredor em corrente contínua entre o Nordeste e o Centro-Sul. O Hub PPP detalhou como o Bipolo Nordeste 2 poderá transportar 3 gigawatts e ampliar o escoamento da geração eólica e solar. O empreendimento é estimado em aproximadamente 2,5 mil quilômetros e ainda depende das etapas formais da futura licitação.

A linha poderá elevar a capacidade física de transferência, mas não eliminar todas as causas de curtailment. Se a restrição decorrer de oferta superior ao consumo nacional em determinado horário, apenas transportar energia entre regiões pode ser insuficiente. Também será necessário coordenar a operação com armazenamento, recursos flexíveis e cargas capazes de utilizar a produção disponível.

Armazenamento desloca energia entre horários

As baterias foram outro instrumento citado pela ENGIE. Esses sistemas podem carregar quando há oferta abundante e descarregar quando a demanda cresce ou outra fonte reduz a produção. Também podem fornecer potência e serviços de resposta rápida. O valor para as energias renováveis está na possibilidade de separar o horário de geração do horário de entrega ao sistema.

O governo federal vem estruturando a contratação de armazenamento em baterias por meio de um Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência. Em junho de 2026, a EPE divulgou a base usada para identificar barramentos candidatos à bonificação locacional. O sinal locacional procura direcionar os projetos para pontos em que possam oferecer maior benefício ao sistema.

Uma bateria não cria energia. Ela consome eletricidade no carregamento, armazena parte desse volume e o devolve depois, com perdas. Potência e duração definem qual necessidade poderá atender e como poderá complementar as energias renováveis. Um sistema capaz de entregar sua capacidade por poucas horas presta um serviço diferente daquele projetado para sustentar descargas longas.

Usinas hidrelétricas reversíveis são outra alternativa. Elas usam eletricidade para bombear água a um reservatório superior e geram quando essa água retorna pelas turbinas. O Hub PPP mostrou que a EPE prepara uma chamada para mapear projetos de usinas reversíveis antes de uma possível contratação competitiva. A iniciativa ainda é uma etapa de levantamento, sem data de leilão definida.

Baterias e usinas reversíveis podem reduzir parte do desencontro horário, mas não substituem automaticamente linhas de transmissão. Se o armazenamento estiver distante do ponto congestionado, a limitação de rede pode permanecer. Da mesma forma, a instalação precisa ter acesso à energia que será armazenada e capacidade de conexão para devolvê-la. A expansão das energias renováveis exige coordenação locacional entre esses ativos.

Juros e contratos influenciam a decisão de investir

A taxa de juros afeta diretamente projetos de infraestrutura intensivos em capital. Parques eólicos e solares exigem desembolsos elevados antes de começar a gerar receita. Uma parte costuma ser financiada por dívida de longo prazo. Quando o custo do dinheiro aumenta, o projeto precisa de receita maior, equipamentos mais baratos ou retorno menor para manter sua viabilidade.

Essa relação ajuda a explicar por que a ENGIE associa a retomada das energias renováveis a juros menores. A taxa de referência, contudo, não é o único componente. Financiadores consideram inflação, prazo, risco do comprador da energia, exposição ao mercado, garantias, atrasos de construção, câmbio de equipamentos e possibilidade de cortes de geração.

Os contratos de energias renováveis funcionam como uma das bases da financiabilidade. No ambiente livre, gerador e consumidor negociam prazo, volume, preço, perfil e mecanismos de proteção. No ambiente regulado, distribuidoras contratam energia por meio de leilões organizados pelo governo. Cada modelo distribui os riscos de forma diferente e responde a necessidades específicas da demanda.

Projetos destinados a grandes consumidores podem avançar mesmo em um quadro geral de sobreoferta, desde que exista uma carga nova, contrato firme e conexão disponível. Data centers, unidades industriais e hidrogênio são exemplos de atividades com potencial para criar demanda adicional. A implantação efetiva, porém, depende de decisões próprias e não deve ser contabilizada como consumo certo antes dos compromissos formais.

A companhia mantém seu pipeline de energias renováveis enquanto aguarda condições mais favoráveis. Manter a carteira significa preservar estudos, áreas, medições e opções de desenvolvimento em diferentes estágios. Não significa que todos os empreendimentos serão executados. Antes da decisão final, cada ativo volta a ser examinado à luz de custos, contratos, rede, licenciamento e retorno esperado.

Aquisições seguem uma lógica diferente dos novos projetos

Embora os investimentos em novas usinas eólicas e solares estejam suspensos, a ENGIE mantém operações de fusões e aquisições no radar. Comprar um ativo existente é diferente de construir uma usina. O comprador encontra histórico operacional, contratos em andamento, conexão pronta e receitas que podem ser avaliadas com dados observados, embora também assuma riscos técnicos, comerciais e regulatórios.

Em 2025, a companhia anunciou a aquisição das hidrelétricas Cachoeira Caldeirão e Santo Antônio do Jari, localizadas no Amapá e na divisa entre Amapá e Pará. Juntas, as usinas acrescentam 612 megawatts de capacidade instalada ao parque operado pela empresa. A estratégia mostra que a pausa em novos projetos de energias renováveis não equivale à interrupção de toda expansão do portfólio.

A ENGIE também ampliou sua escala por outras operações e projetos. No segundo trimestre de 2026, a companhia informou capacidade instalada própria de 11.266 megawatts, distribuída por 145 usinas. O dado consta do fact sheet divulgado pela empresa aos investidores e retrata a posição antes de eventuais mudanças societárias posteriores.

Segundo Sattamini, ativos solares não fazem sentido para a companhia no cenário atual. A afirmação se refere à avaliação empresarial do momento e não indica abandono permanente da fonte. Preço pedido, perfil de receita, incidência de curtailment, qualidade dos contratos e localização podem alterar a atratividade de cada ativo.

Possível retomada ficará condicionada ao equilíbrio do sistema

O horizonte de quatro a cinco anos apresentado pela ENGIE coincide com o período em que a expansão do consumo poderá exigir nova capacidade, caso as projeções econômicas e energéticas se confirmem. Até lá, o setor deverá acompanhar a evolução da carga, a implantação de grandes consumidores, o ritmo dos leilões de transmissão e a contratação de armazenamento.

Também será necessário observar o comportamento dos cortes de geração. Se o curtailment permanecer elevado, receitas esperadas de energias renováveis continuarão sujeitas a maior incerteza. Se obras de rede, armazenamento e novas cargas reduzirem as restrições, projetos hoje mantidos em carteira poderão ser reavaliados com outro nível de risco.

A retomada não deverá ocorrer de forma uniforme entre fontes e regiões. Projetos com conexão disponível, contratos de longo prazo e proximidade de cargas podem avançar antes. Empreendimentos localizados em áreas congestionadas ou dependentes de reforços ainda não contratados poderão exigir cronogramas mais extensos. O mesmo vale para projetos com licenciamento ou estrutura fundiária incompletos.

As projeções da EPE indicam crescimento do consumo até 2035, mas a faixa entre os cenários mostra que o volume adicional permanece sensível ao desempenho da economia e à materialização de novas cargas. É essa diferença que definirá quanto e quando o país precisará de outra rodada de energias renováveis.

A previsão da ENGIE, portanto, estabelece condições, não uma data fechada. Demanda maior, juros menores, transmissão disponível, armazenamento contratado e regras claras para os cortes formam o conjunto de variáveis que antecede a decisão de investir. Enquanto essas condições são avaliadas, a companhia mantém projetos em desenvolvimento para responder a uma eventual necessidade de nova capacidade no início da próxima década.

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