Bipolo Nordeste 2: maior linha de transmissão do Brasil pode ir a leilão em 2027 n n

Projeto estimado em R$ 26 bilhões prevê um corredor de 2,5 mil quilômetros entre o Rio Grande do Norte e o Paraná, com capacidade de transportar 3 GW e tecnologia VSC inédita no país. Governo avalia realizar o leilão em outubro de 2027, mas o calendário ainda não foi oficializado.
Bipolo Nordeste 2 prevê linha de transmissão entre o Rio Grande do Norte e o Paraná

O governo federal prepara para 2027 a possível licitação do Bipolo Nordeste 2, projeto que poderá se tornar a maior linha de transmissão de energia do Brasil. O empreendimento está estimado em R$ 26 bilhões e prevê a construção de aproximadamente 2,5 mil quilômetros de instalações entre Angicos, no Rio Grande do Norte, e Itaporanga 2, no Paraná.

O novo corredor deverá ter capacidade para transportar 3 gigawatts entre o Nordeste e o Centro-Sul. A função principal será ampliar o escoamento da geração eólica e solar nordestina, reduzir restrições provocadas por limitações da rede e abrir espaço para a conexão de novos projetos de geração e grandes consumidores de energia.

A expectativa em análise é incluir o Bipolo Nordeste 2 em um dos leilões de transmissão previstos para o segundo semestre de 2027. A Agência Nacional de Energia Elétrica sugeriu que o empreendimento em corrente contínua seja tratado separadamente das instalações convencionais em corrente alternada, considerando seu porte e sua complexidade tecnológica.

Outubro de 2027 aparece como data possível para a disputa. O cronograma, entretanto, ainda depende de nova portaria do Ministério de Minas e Energia. Portanto, o projeto possui estudos de planejamento e uma previsão de contratação, mas ainda não conta com edital publicado ou data definitivamente confirmada.

Bipolo Nordeste 2 terá 2,5 mil quilômetros

O Bipolo Nordeste 2 foi concebido como um corredor expresso de transmissão em corrente contínua. A solução de referência estudada pela Empresa de Pesquisa Energética prevê uma ligação entre a Subestação Angicos, no Rio Grande do Norte, e a Subestação Itaporanga 2, no Paraná.

Com cerca de 2,5 mil quilômetros, o empreendimento atravessará diferentes regiões do país até chegar ao ponto de conexão com a rede do Centro-Sul. A extensão prevista supera a de outros corredores individuais de transmissão construídos ou contratados no Brasil.

O projeto também deverá envolver estações conversoras nas duas extremidades e instalações associadas para integrar o sistema de corrente contínua à rede existente de corrente alternada. A configuração definitiva dos ativos será detalhada nos documentos que subsidiarão o futuro edital.

A estimativa de R$ 26 bilhões representa o valor atualmente atribuído ao conjunto de investimentos. Esse número ainda poderá ser atualizado conforme a conclusão dos estudos técnicos, ambientais e regulatórios. Também não corresponde à remuneração que será recebida pela futura concessionária.

Nos leilões de transmissão, o investimento estimado dimensiona as obras, mas a competição normalmente ocorre pela Receita Anual Permitida. Os participantes apresentam descontos sobre o valor máximo estabelecido pela Aneel, e vence quem aceitar executar e operar o empreendimento pela menor receita anual, observadas as condições do edital.

Tecnologia VSC será inédita no Brasil

O Bipolo Nordeste 2 deverá operar em corrente contínua de alta tensão, com uma solução de referência em ±600 quilovolts e capacidade de 3 GW. O sistema utilizará conversores VSC, sigla em inglês para Voltage Source Converter.

Essa tecnologia permite controlar de maneira mais precisa o fluxo de potência e contribuir para a estabilidade da tensão nos pontos conectados ao sistema. A característica é relevante em redes que recebem grandes volumes de geração variável, como parques eólicos e solares.

A produção dessas fontes depende da disponibilidade do vento e da radiação solar. Em determinados períodos, a geração pode aumentar rapidamente ou superar a capacidade momentânea de transferência da rede. Em outros momentos, pode ocorrer uma redução repentina da produção.

Os conversores VSC oferecem maior flexibilidade para responder a essas variações. Também permitem o controle independente de potência ativa e reativa, auxiliando o gerenciamento da tensão e a integração entre regiões com perfis diferentes de geração e consumo.

A aplicação da tecnologia em uma linha de longa distância será inédita no sistema brasileiro. A EPE já apresentou as características técnicas do corredor em seus estudos de expansão da transmissão, que subsidiam as decisões do Ministério de Minas e Energia e da Aneel. Os documentos e programas do setor podem ser consultados no portal da Empresa de Pesquisa Energética.

O uso do VSC também eleva a complexidade da contratação. Conversores desse porte são produzidos por um grupo limitado de fornecedores internacionais e exigem engenharia especializada, encomendas antecipadas e integração com diferentes equipamentos da rede.

Maior linha de transmissão do Brasil enfrentará gargalo das renováveis

O crescimento da geração eólica e solar transformou o Nordeste em uma das principais regiões exportadoras de eletricidade do país. Em vários momentos, a capacidade disponível para produzir energia é superior ao espaço existente para transferi-la a outras regiões.

Quando a operação do Sistema Interligado Nacional identifica riscos relacionados à segurança ou à estabilidade da rede, o Operador Nacional do Sistema Elétrico pode determinar a redução temporária da geração de determinadas usinas. Esse processo é conhecido como curtailment ou corte de geração.

Parte dos cortes ocorre por limitações das instalações de transmissão. Também existem restrições relacionadas ao equilíbrio entre geração e consumo, à indisponibilidade de equipamentos e a outras condições operacionais. O ONS disponibiliza séries históricas sobre restrições aplicadas a usinas eólicas e fotovoltaicas em seu Portal de Dados Abertos.

O Bipolo Nordeste 2 foi planejado principalmente para diminuir restrições associadas à confiabilidade elétrica. A nova capacidade de transferência permitirá transportar até 3 GW adicionais do Nordeste para o Centro-Sul, reduzindo congestionamentos em determinados pontos da rede.

O Rio Grande do Norte ocupa uma posição central no projeto por concentrar elevada capacidade de geração eólica e novos empreendimentos em desenvolvimento. A instalação de uma estação conversora em Angicos criará uma nova saída de grande porte para essa energia.

A chegada ao Paraná permitirá a entrega da potência em uma região conectada aos maiores centros de consumo do país. A energia poderá ser distribuída a partir da rede existente, de acordo com as condições de operação e as necessidades do sistema.

Linha não resolverá todas as causas de curtailment

A entrada do novo corredor deverá aumentar a capacidade física de intercâmbio, mas não eliminará isoladamente todas as modalidades de curtailment. Cortes determinados por excesso de oferta em relação ao consumo, por exemplo, não dependem exclusivamente da disponibilidade de linhas.

A redução estrutural das restrições envolve a combinação de transmissão, armazenamento, localização de novas cargas, resposta da demanda, sinais econômicos e planejamento da expansão da geração. As obras de reforço da rede atuam sobre uma parte dessa equação.

O Bipolo Nordeste 2 também poderá aumentar a margem para novos pedidos de conexão. A disponibilidade de capacidade é considerada por empresas que avaliam instalar parques renováveis, unidades industriais, projetos de hidrogênio de baixa emissão e centros de processamento de dados.

A existência do corredor, porém, não representa autorização automática para qualquer novo empreendimento. Cada projeto de geração ou consumo continuará sujeito aos procedimentos de acesso, aos estudos técnicos, à disponibilidade remanescente e às regras aplicáveis no momento da solicitação.

A cobertura de concessões e projetos de energia integra o acompanhamento realizado pelo Hub PPP sobre os contratos de longo prazo que mobilizam investimentos privados no país.

Projeto será uma concessão, e não uma PPP

Embora envolva um leilão público e investimentos privados, o Bipolo Nordeste 2 não será contratado como Parceria Público-Privada. O modelo previsto é uma concessão de serviço público de transmissão de energia elétrica.

A diferença está principalmente na forma de remuneração. Em uma PPP, o contrato envolve contraprestação pecuniária do parceiro público. Na transmissão de energia, a concessionária recebe a Receita Anual Permitida pela disponibilidade das instalações para o Sistema Interligado Nacional.

A remuneração não depende diretamente da quantidade de energia que efetivamente passa pela linha. A concessionária deve manter os ativos disponíveis e cumprir os padrões técnicos e operacionais estabelecidos no contrato e na regulamentação.

Interrupções, atrasos e indisponibilidades podem provocar descontos e penalidades. Assim, embora a receita possua maior previsibilidade do que a de concessões expostas diretamente à demanda dos usuários, a empresa permanece sujeita a riscos de construção, desempenho e disponibilidade.

Os contratos de transmissão normalmente possuem prazo de 30 anos. A duração, a receita máxima, o cronograma de implantação, as garantias e as penalidades do Bipolo Nordeste 2 serão conhecidos somente com a publicação das minutas e do edital.

Calendário de 2027 poderá ter três leilões

O Ministério de Minas e Energia trabalha na revisão do calendário de licitações de transmissão entre 2026 e 2028. A programação anterior previa dois leilões durante 2027, mas a nova organização em discussão poderá elevar esse número para três.

O primeiro certame está marcado para abril de 2027. A Aneel abriu a Consulta Pública nº 32/2026 para receber contribuições sobre a minuta do edital, os contratos e os estudos correspondentes.

A proposta do primeiro leilão reúne 12 lotes, aproximadamente 3.245 quilômetros de novas linhas e 1.386 MVA de capacidade de transformação. Os investimentos foram estimados em R$ 12,9 bilhões, com previsão de implantação de projetos em diferentes estados.

Entre as novidades está um sistema de armazenamento por baterias destinado ao Acre. A carteira também inclui as instalações relacionadas à interligação elétrica entre Brasil e Bolívia, condicionadas ao cumprimento dos requisitos institucionais necessários ao projeto internacional.

As informações do processo podem ser acompanhadas na seção oficial de notícias e consultas da Aneel.

Para o segundo semestre, o planejamento em avaliação divide os empreendimentos em dois grupos. O Bipolo Nordeste 2 e as instalações diretamente relacionadas ao sistema em corrente contínua seriam licitados em outubro. Os demais projetos em corrente alternada ficariam para dezembro.

A separação busca impedir que um projeto de R$ 26 bilhões dispute espaço com numerosos lotes convencionais no mesmo certame. Também permite que a documentação trate de forma específica da tecnologia VSC, dos conversores e dos prazos necessários para a fabricação dos equipamentos.

Comparação com o primeiro bipolo do Nordeste

O Bipolo Nordeste 2 sucederá outro grande corredor em corrente contínua contratado pelo governo federal. O sistema Graça Aranha–Silvânia foi licitado em dezembro de 2023 como o principal empreendimento de um leilão que reuniu três lotes.

O conjunto daquele certame envolveu aproximadamente 4.471 quilômetros de linhas e investimentos originalmente estimados em R$ 21,7 bilhões. Os contratos foram formalizados em 2024, conforme informações publicadas pelo governo federal.

O bipolo Graça Aranha–Silvânia possui cerca de 1.468 quilômetros e ligará o Maranhão a Goiás. A função também é ampliar o escoamento da produção renovável do Nordeste em direção às regiões de maior consumo.

A diferença tecnológica está no tipo de conversor. O primeiro corredor utiliza uma configuração já empregada em outros sistemas de corrente contínua do país. O Bipolo Nordeste 2 deverá adotar VSC, aumentando a capacidade de controle e a flexibilidade operacional.

A execução do primeiro empreendimento funciona como referência para a capacidade do mercado de construir linhas de longa distância. Ao mesmo tempo, o segundo projeto terá extensão maior e equipamentos que ainda não foram utilizados no Brasil nessa escala.

Investimento de R$ 26 bilhões restringe número de concorrentes

O tamanho do projeto deverá influenciar a composição da disputa. Um empreendimento estimado em R$ 26 bilhões exige capacidade de aportar capital próprio, contratar financiamento, comprar equipamentos no mercado internacional e administrar milhares de frentes de licenciamento, fundiárias e construtivas.

Essas exigências tendem a limitar a concorrência a grupos de transmissão de grande porte ou consórcios formados especificamente para o leilão. A publicação antecipada do calendário oferece tempo para que empresas avaliem parceiros, fornecedores e alternativas de financiamento.

A Receita Anual Permitida máxima será um dos principais números da licitação. A definição precisará considerar os investimentos, as despesas operacionais, o custo de capital, os tributos, o prazo de construção e os riscos associados à tecnologia.

Descontos elevados aumentam a economia tarifária produzida pelo leilão, mas reduzem a margem financeira disponível para a concessionária. A análise do resultado deverá considerar não apenas o deságio, como também a capacidade do vencedor de executar o contrato no prazo.

Os estudos ainda deverão informar se o empreendimento será oferecido em um único lote ou se haverá alguma divisão societária ou contratual das instalações associadas. O conceito de um corredor integrado favorece a operação coordenada, enquanto o porte financeiro pode reduzir o universo de participantes.

Licenciamento será uma das etapas mais extensas

A implantação de 2,5 mil quilômetros de linha exigirá a definição detalhada do traçado e a realização dos procedimentos de licenciamento ambiental. A extensão atravessará áreas com diferentes características ambientais, fundiárias e urbanas.

O traçado preliminar utilizado no planejamento não substitui os levantamentos de campo. A futura concessionária deverá realizar estudos, negociar a passagem da linha, constituir servidões administrativas e obter as licenças necessárias para iniciar as obras.

Alterações de rota podem ser necessárias para evitar áreas sensíveis, ocupações, interferências com outros empreendimentos e obstáculos identificados durante o licenciamento. Essas mudanças podem afetar o comprimento final, o custo e o cronograma.

A disponibilidade de mão de obra qualificada também será relevante. O calendário avaliado para 2027 reúne, além do Bipolo Nordeste 2, a interligação com a Bolívia, instalações convencionais e o primeiro sistema de baterias contratado dentro da transmissão.

A realização de três leilões em um único ano concentrará encomendas de torres, cabos, transformadores, conversores e outros equipamentos. Parte da cadeia pode ser atendida pela indústria brasileira, enquanto componentes mais especializados dependem de fornecedores estrangeiros.

Financiamento precisará acompanhar o cronograma de fabricação

Os conversores VSC estão entre os equipamentos mais caros e complexos do projeto. A fabricação exige contratos firmados com antecedência, definição técnica precisa e acompanhamento da integração entre diferentes sistemas.

A concessionária deverá compatibilizar os desembolsos necessários para as encomendas com a liberação dos financiamentos. Entre as fontes possíveis estão capital dos acionistas, crédito bancário, linhas de longo prazo e emissões no mercado de capitais.

Projetos de transmissão possuem receitas reguladas e contratos extensos, características que podem apoiar estruturas de financiamento de longo prazo. Isso não elimina os riscos da etapa de construção, quando a concessionária ainda não recebe integralmente a Receita Anual Permitida.

O edital deverá definir o prazo máximo para entrada em operação. Até que esse documento seja publicado, não é possível indicar a data em que o Bipolo Nordeste 2 estará concluído ou começará a transmitir energia.

O que falta para o leilão do Bipolo Nordeste 2

A inclusão definitiva do projeto no calendário depende da publicação da nova portaria do Ministério de Minas e Energia. Depois disso, a Aneel deverá instruir o processo, consolidar os estudos, elaborar as minutas e abrir consulta pública específica sobre o empreendimento.

A documentação deverá apresentar a composição exata das instalações, o investimento de referência, o prazo de construção, a Receita Anual Permitida máxima e as responsabilidades atribuídas à futura concessionária.

Também será necessário conhecer o estágio dos estudos ambientais, as premissas de financiamento e as condições de fornecimento dos conversores. Esses elementos influenciarão a avaliação das empresas interessadas.

A previsão de outubro de 2027 representa o cenário atualmente considerado para o Bipolo Nordeste 2, mas ainda pode ser alterada durante a revisão do calendário. A notícia, portanto, está na preparação de uma concessão de escala inédita, e não na confirmação definitiva de sua realização.

Se o cronograma for mantido, o projeto deverá ocupar posição central na carteira federal de concessões de energia de 2027. Seus próximos marcos serão a publicação da portaria ministerial, a abertura da consulta pública e a divulgação das condições econômicas do leilão.

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