Interligação elétrica Brasil-Bolívia entra em leilão de R$ 12,9 bilhões

Interligação elétrica Brasil-Bolívia terá linhas de transmissão e estação conversora no Mato Grosso do Sul

A interligação elétrica Brasil-Bolívia foi incluída na proposta do primeiro leilão federal de transmissão de 2027, previsto para abril. A minuta colocada em consulta pública pela Agência Nacional de Energia Elétrica reúne 12 lotes, aproximadamente 3,2 mil quilômetros de novas linhas e investimentos estimados em R$ 12,9 bilhões.

A expectativa da Aneel é que o conjunto dos empreendimentos gere 29,5 mil empregos diretos e indiretos, segundo as informações oficiais divulgadas pela agência.

O principal projeto da carteira é a infraestrutura associada à conexão com a Bolívia. Com cerca de 1,3 mil quilômetros de linhas e investimentos preliminares de R$ 6,7 bilhões, esse sistema representa aproximadamente 52% de todo o capital estimado para o leilão.

O valor e a dimensão colocam a interligação elétrica Brasil-Bolívia entre os maiores projetos de transmissão atualmente em preparação no país. A inclusão na minuta, contudo, não significa que o empreendimento já esteja confirmado no edital definitivo.

A conexão internacional depende da aprovação legislativa do acordo assinado pelos dois países, do aprofundamento das informações sobre o sistema boliviano e da compatibilização dos cronogramas de implantação nos dois lados da fronteira.

Interligação elétrica Brasil-Bolívia retorna ao leilão

O empreendimento estava inicialmente previsto para o segundo leilão de transmissão de 2026, programado para outubro, mas foi retirado durante a preparação do edital.

Naquele momento, foram identificadas incertezas sobre a ratificação do acordo internacional, a modelagem da rede boliviana e a correspondência entre os prazos de construção das infraestruturas brasileiras e bolivianas.

A transferência para o primeiro certame de 2027 oferece mais tempo para solucionar essas questões. Ao mesmo tempo, mantém um cronograma apertado para um projeto que depende de decisões regulatórias, diplomáticas e legislativas.

A consulta pública deverá permitir que transmissoras, fabricantes, financiadores e demais interessados avaliem a divisão dos lotes, os investimentos de referência, os prazos de implantação, a Receita Anual Permitida e a matriz de riscos.

Somente depois da análise dessas contribuições a diretoria da Aneel poderá aprovar a versão definitiva. O edital ainda deverá passar pelo controle prévio do Tribunal de Contas da União antes da realização do leilão.

Portanto, a interligação elétrica Brasil-Bolívia deve ser tratada como um projeto em estruturação, e não como uma contratação já assegurada para abril de 2027.

Projeto não é apenas uma linha até a fronteira

A expressão “linhão Brasil-Bolívia” simplifica uma infraestrutura bem mais ampla. A conexão internacional representa apenas uma das funções do sistema previsto.

O planejamento considera a criação de um novo eixo de transmissão em 500 quilovolts no Mato Grosso do Sul, conectado às redes de Goiás e do Paraná. O conjunto inclui novas linhas, subestações, equipamentos de compensação e uma estação conversora.

O Programa de Expansão da Transmissão da EPE apresenta, entre as instalações planejadas, uma linha de 500 kV entre Rio Verde Norte e Chapadão, com aproximadamente 220 quilômetros, além dos trechos Chapadão–Rio Brilhante, com 330 quilômetros, e Rio Brilhante–Sarandi, com 310 quilômetros.

Também estão previstas a subestação de 500 kV em Chapadão, a ampliação da infraestrutura de Rio Brilhante, a estação conversora de Corumbá 2 e uma linha de 230 kV com cerca de 35 quilômetros entre Corumbá e a fronteira.

Isso significa que os aproximadamente 1,3 mil quilômetros associados ao projeto não formam uma única linha direta atravessando os três estados. Trata-se de uma rede de reforços que cria um corredor de alta capacidade entre Goiás, Mato Grosso do Sul e Paraná, ao mesmo tempo que prepara a conexão internacional.

Essa distinção é importante para compreender o benefício econômico. Mesmo antes de qualquer intercâmbio relevante de energia com a Bolívia, parte da infraestrutura poderá reforçar o atendimento brasileiro, ampliar a margem para novos projetos de geração e reduzir limitações operacionais no Centro-Oeste.

Mato Grosso do Sul recebe novo eixo de 500 kV

O sistema de transmissão sul-mato-grossense ainda possui áreas sujeitas a restrições de capacidade, problemas de tensão e dependência de corredores que limitam a expansão de novos empreendimentos.

A interligação elétrica Brasil-Bolívia foi planejada também para enfrentar essas dificuldades. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética, o novo eixo de 500 kV deverá aumentar a margem para a conexão de fontes de geração e reforçar a segurança do atendimento no estado.

A infraestrutura permitirá uma ligação mais robusta entre os subsistemas Sul e Sudeste/Centro-Oeste. Essa integração facilita o transporte de energia entre regiões com perfis diferentes de consumo e geração, permitindo ao Operador Nacional do Sistema utilizar melhor os recursos disponíveis.

O estudo técnico da EPE estimou originalmente investimentos próximos de R$ 7 bilhões. A minuta mais recente trabalha com aproximadamente R$ 6,7 bilhões para o projeto associado à conexão.

A diferença pode decorrer da atualização dos orçamentos, da organização dos lotes e da definição das instalações que serão efetivamente licitadas. Como o edital ainda está em consulta, os valores de referência poderão ser alterados antes da publicação definitiva.

O investimento elevado também precisará ser comparado com os benefícios produzidos dentro do próprio Sistema Interligado Nacional. A avaliação não deve considerar apenas a energia eventualmente importada ou exportada pela fronteira, mas a melhoria da confiabilidade, a redução de restrições e a capacidade adicional criada para novos projetos brasileiros.

Tecnologia VSC resolve diferença entre as frequências

Brasil e Bolívia utilizam frequências elétricas diferentes. A rede brasileira opera em 60 hertz, enquanto o sistema boliviano funciona em 50 hertz. As duas redes, portanto, não podem ser conectadas diretamente como se integrassem um único sistema sincronizado.

A solução proposta pela EPE utiliza uma estação conversora back-to-back com tecnologia VSC, sigla em inglês para conversor de fonte de tensão. O equipamento transforma a energia recebida de um sistema e a entrega ao outro na frequência adequada.

A estação deverá ser instalada na região de Corumbá. A tecnologia permite controlar com precisão o fluxo de potência, oferecer suporte de tensão e manter os sistemas eletricamente separados mesmo durante o intercâmbio.

De acordo com a EPE, essa será uma aplicação inédita da tecnologia VSC no Sistema Interligado Nacional. A escolha ocorreu depois da comparação entre alternativas técnicas e de consultas a fabricantes.

A inovação traz benefícios operacionais, mas também aumenta a atenção necessária à contratação. O edital precisará tratar da disponibilidade de fornecedores, das garantias de desempenho, dos custos de equipamentos importados, da exposição cambial e da responsabilidade por eventuais incompatibilidades entre a conversora e as redes dos dois países.

O prazo de construção também deverá considerar a fabricação, os testes e o comissionamento de equipamentos que não são produzidos em grande escala no mercado brasileiro. Uma linha convencional pode ser concluída fisicamente sem que a conexão internacional esteja pronta para operar. A estação conversora, por outro lado, será indispensável para o intercâmbio de energia.

Acordo internacional permanece no caminho crítico

Brasil e Bolívia assinaram, em março de 2026, um acordo específico para a interconexão elétrica. O documento aparece entre os atos adotados durante a visita oficial do presidente boliviano ao Brasil.

A assinatura pelos governos não encerra o processo. O acordo precisa passar pelos procedimentos legislativos aplicáveis nos dois países antes de produzir todos os efeitos necessários à execução do projeto.

Esse é o principal risco da interligação elétrica Brasil-Bolívia. O Brasil pode licitar e construir reforços úteis ao seu próprio sistema, mas a operação internacional depende da existência de infraestrutura compatível na Bolívia e de uma base jurídica válida para o intercâmbio.

Também será necessário estabelecer regras sobre despacho, medição, contratação, formação de preços, liquidação financeira e responsabilidade por interrupções. A conexão física não cria automaticamente um mercado de energia entre os países.

A modelagem deverá indicar quem poderá comprar e vender energia, como o Operador Nacional do Sistema se relacionará com o operador boliviano e quais critérios serão utilizados para autorizar importações ou exportações.

Outro ponto será a direção do fluxo. A interligação poderá permitir operações nos dois sentidos, mas isso não significa que Brasil ou Bolívia estejam obrigados a fornecer energia permanentemente. O uso dependerá da disponibilidade, do preço e das condições de segurança dos sistemas.

Concessão será remunerada pela disponibilidade

Os leilões de transmissão não contratam a venda de determinada quantidade de energia. Eles selecionam empresas para construir, operar e manter a infraestrutura durante um contrato de longo prazo.

A transmissora vencedora recebe uma Receita Anual Permitida, desde que as instalações permaneçam disponíveis dentro dos padrões estabelecidos. O pagamento não depende diretamente do volume de eletricidade que efetivamente passar pelas linhas.

Segundo a Aneel, o MME é responsável pelo planejamento e pela definição das instalações que serão licitadas, enquanto a agência organiza os certames por delegação do poder concedente.

No leilão, a competição normalmente ocorre pelo maior desconto sobre a receita máxima definida no edital. Quanto maior o deságio, menor tende a ser o custo anual incorporado ao sistema de transmissão.

Esse mecanismo será particularmente importante na interligação elétrica Brasil-Bolívia. Um investimento de R$ 6,7 bilhões não será transferido integralmente e de uma só vez para a conta de luz. O impacto tarifário ocorrerá por meio da receita reconhecida ao longo da concessão e dependerá do resultado competitivo do leilão.

Ainda assim, o consumidor pagará pela disponibilidade dos ativos brasileiros, inclusive durante períodos de baixo intercâmbio internacional. Por isso, o edital precisará demonstrar que os benefícios sistêmicos justificam a infraestrutura mesmo em cenários conservadores de comércio de energia com a Bolívia.

Leilão também terá baterias e cargas eletrointensivas

Embora a conexão internacional concentre a maior parte dos investimentos, a carteira de abril de 2027 revela uma mudança mais ampla no planejamento da transmissão brasileira.

A proposta inclui o primeiro sistema de baterias licitado como ativo de transmissão. A instalação prevista para Cruzeiro do Sul, no Acre, deverá ter potência de 100 MW e capacidade de armazenamento de 200 MWh, suficiente para operar por duas horas na potência nominal.

O sistema foi planejado para aumentar a flexibilidade e a confiabilidade do atendimento no estado. O PET/PELP da EPE estima aproximadamente R$ 925 milhões em investimentos nas baterias e nas linhas associadas ao atendimento de Feijó e Cruzeiro do Sul.

Outros lotes deverão ampliar a capacidade de conexão de cargas eletrointensivas no Nordeste, incluindo potenciais data centers e plantas de produção de hidrogênio. Esses projetos exigem grandes volumes de energia e podem alterar significativamente o planejamento regional.

O leilão deixa, assim, de tratar apenas da expansão convencional da rede. Ele reúne integração internacional, armazenamento de energia, escoamento de geração renovável e atendimento a novos centros de consumo de grande porte.

Esse movimento reforça uma agenda acompanhada pelo Hub PPP: as concessões de transmissão estão se tornando uma plataforma para viabilizar novos investimentos industriais, tecnológicos e energéticos, e não apenas um meio de conectar usinas já contratadas.

O que ainda pode mudar antes do leilão

A primeira questão será a permanência da interligação elétrica Brasil-Bolívia no edital definitivo. O projeto já foi retirado de um certame por insuficiência de informações e poderá voltar a enfrentar dificuldades caso as pendências bilaterais não sejam resolvidas.

Também será necessário observar se o conjunto será mantido em um único lote ou dividido para ampliar a competição. Um lote de R$ 6,7 bilhões exige capacidade financeira, técnica e operacional elevada, o que pode restringir o número de participantes.

A separação das instalações poderia atrair mais concorrentes, mas aumentaria os riscos de coordenação entre concessionárias diferentes. A operação da conversora depende da conclusão das linhas e subestações que formam o corredor de 500 kV.

Outro ponto será o prazo regulatório. O contrato precisará conciliar licenciamento ambiental, obtenção das faixas de servidão, aquisição de equipamentos, construção das linhas e disponibilidade das instalações bolivianas.

A matriz de riscos deverá indicar o que acontecerá se o lado brasileiro for concluído antes da infraestrutura estrangeira. Sem essa definição, a concessionária poderá ser responsabilizada por atrasos que não controla ou o consumidor poderá pagar por ativos impedidos de cumprir sua função internacional.

A consulta pública será o primeiro teste para essas escolhas. Depois dela, a análise do TCU e a publicação do edital mostrarão se o governo conseguiu transformar uma intenção diplomática em um contrato financiável e operacionalmente consistente.

A interligação elétrica Brasil-Bolívia tem potencial para fortalecer o sistema do Centro-Oeste, ampliar a integração regional e criar uma nova rota de intercâmbio energético. Seu avanço, contudo, dependerá menos da extensão anunciada das linhas e mais da qualidade das garantias jurídicas, técnicas e contratuais construídas até abril de 2027.

Compartilhe essa notícia