PPP de habitação avança, mas financiamento e gestão ainda limitam escala

São Paulo contratou 22.430 moradias com aproximadamente R$ 4 bilhões em investimentos privados, enquanto Recife testa a locação social em contrato de 25 anos. A experiência mostra que a PPP de habitação pode entregar mais do que obras, mas exige terrenos regularizados, garantias públicas e gestão permanente dos empreendimentos.
PPP de habitação combina moradia social, infraestrutura urbana e manutenção dos empreendimentos

A PPP de habitação começa a produzir resultados concretos depois de passar anos restrita a poucos projetos experimentais. Em São Paulo, famílias já recebem as chaves de empreendimentos construídos por concessionárias que continuarão responsáveis pela conservação dos imóveis. No Recife, a prefeitura concluiu a licitação de uma parceria que combina locação social, venda de unidades e recuperação da área central.

Os projetos indicam que existe espaço para transformar a política habitacional em um serviço de longo prazo, no qual a empresa privada não é contratada apenas para entregar prédios. A mesma concessionária pode participar da regularização dos terrenos, executar obras de infraestrutura, manter os empreendimentos, administrar contratos e desenvolver trabalho social com os moradores.

Essa ampliação do escopo é justamente o que diferencia uma PPP de habitação de uma licitação tradicional de obras. Também é o que torna o contrato mais difícil de estruturar, financiar e fiscalizar.

O modelo ainda está distante de alcançar escala nacional. O Brasil registrava déficit de 5,77 milhões de domicílios em 2024, equivalente a 7,4% das moradias particulares ocupadas, segundo a Fundação João Pinheiro. Mesmo a carteira de 22.430 unidades contratadas pela capital paulista corresponde a menos de 0,4% desse déficit.

A comparação não diminui a importância dos projetos. Ela mostra que a PPP de habitação pode ser uma ferramenta complementar, mas não substitui programas de financiamento, subsídios, urbanização de assentamentos, regularização fundiária e produção habitacional diretamente apoiada pelo poder público.

São Paulo transforma construção em serviço de longo prazo

A experiência mais avançada está na capital paulista. A Prefeitura de São Paulo informa que sua modalidade de parcerias habitacionais contratou 22.430 novas moradias, com cerca de R$ 4 bilhões em investimentos privados.

Além das unidades residenciais, os contratos podem incluir equipamentos públicos, áreas comerciais, infraestrutura urbana, apoio à gestão condominial, trabalho social e manutenção predial. O desembolso público é distribuído ao longo do contrato, enquanto o parceiro privado precisa mobilizar recursos para executar os investimentos inicialmente.

Um dos resultados mais recentes é o Residencial Ipê, entregue em junho na Mooca. O empreendimento recebeu investimento de R$ 40 milhões e possui 222 apartamentos, dos quais 135 foram destinados a famílias cadastradas pela COHAB-SP e 87 à demanda da CDHU.

A localização ajuda a explicar por que o projeto é relevante. Segundo a Prefeitura de São Paulo, o conjunto está a pouco mais de um quilômetro da Estação Bresser-Mooca do Metrô, próximo a linhas de ônibus, escolas, unidades de saúde e serviços já existentes.

Esse detalhe é tão importante quanto o número de apartamentos. Durante décadas, parte da política habitacional brasileira produziu moradias em terrenos periféricos porque o solo era mais barato. A economia obtida na aquisição da área frequentemente era transferida para as famílias na forma de viagens mais longas, maior gasto com transporte e menor acesso a emprego e serviços públicos.

Uma PPP de habitação bem estruturada precisa calcular o custo da localização durante toda a vida do empreendimento. Construir perto de metrô, ônibus, escolas e postos de saúde pode exigir um terreno mais caro, mas reduz a necessidade de criar infraestrutura adicional e melhora a permanência das famílias no imóvel.

No caso do Residencial Ipê, a implantação também foi acompanhada pela abertura de uma rua, entrega de praça pública e requalificação da Avenida Paes de Barros. A habitação passou a funcionar como parte de uma intervenção urbana, e não como um condomínio isolado.

A PPP de habitação não pode ter como único objeto a obra

Nem toda parceria entre governo e empresa privada é juridicamente uma PPP. A Lei nº 11.079/2004 define as parcerias público-privadas como contratos de concessão patrocinada ou administrativa.

A legislação proíbe uma PPP cujo objeto seja apenas executar uma obra pública. O contrato precisa incluir a prestação de serviços durante um período mínimo de cinco anos e máximo de 35 anos, além de critérios objetivos de desempenho, mecanismos de pagamento e repartição de riscos.

Na habitação, isso significa que a concessionária não deve desaparecer depois da entrega das chaves. A lógica da parceria está em vinculá-la à qualidade do empreendimento ao longo do tempo.

Em São Paulo, a iniciativa privada responde pela implantação, manutenção e conservação dos conjuntos durante a concessão. A prefeitura realiza a contraprestação de acordo com as entregas previstas no contrato, enquanto as famílias participam do pagamento dos imóveis conforme as regras do programa.

A permanência da empresa pode influenciar decisões que normalmente aparecem apenas depois da ocupação. Elevadores mais resistentes, fachadas com menor necessidade de pintura, redes hidráulicas acessíveis para manutenção e materiais com maior durabilidade podem custar mais na construção, mas reduzir despesas durante os 20 anos seguintes.

Esse é o principal ganho potencial da PPP de habitação: integrar projeto, construção e manutenção dentro da mesma equação econômica. Quando a construtora também paga pelas falhas futuras, ela possui incentivo para reduzir improvisações e escolher soluções capazes de suportar o uso cotidiano.

A entrega das chaves não encerra o contrato

A parte mais delicada começa depois que as famílias se mudam. Empreendimentos de interesse social precisam lidar com gestão condominial, inadimplência, manutenção dos espaços comuns, conflitos entre moradores e conservação de equipamentos.

Essas obrigações não fazem parte da atividade tradicional de uma construtora. Para executar uma PPP de habitação, empresas de engenharia podem precisar se associar a administradoras, prestadores de serviços sociais, gestores condominiais e operadores especializados.

O contrato também precisa determinar o que será efetivamente medido. Indicadores restritos à limpeza, à pintura ou ao funcionamento dos elevadores são insuficientes para avaliar uma política habitacional.

É necessário acompanhar o estado de conservação das unidades, o tempo de solução de problemas, a ocupação dos imóveis, a inadimplência, o funcionamento dos equipamentos públicos e a capacidade de manter as famílias no empreendimento.

Indicadores sociais exigem cuidado adicional. A concessionária pode apoiar moradores no acesso a serviços públicos, no desenvolvimento comunitário e na gestão condominial, mas não deve receber obrigações sobre as quais possui pouco controle, como desempenho escolar dos filhos, emprego ou renda familiar.

Transferir riscos incontroláveis ao parceiro privado tende a aumentar o preço da proposta ou gerar disputas futuras. O poder público precisa distinguir resultados que dependem diretamente da concessionária daqueles influenciados por políticas de educação, saúde, assistência social e segurança.

Terreno público ainda dificulta o financiamento

A disponibilidade do terreno é uma das principais vantagens do poder público na estruturação de projetos habitacionais. Municípios e estados possuem áreas que podem reduzir o custo de implantação e viabilizar moradias em regiões valorizadas.

O problema aparece quando a concessionária procura financiamento. Como o imóvel continua pertencendo ao poder público ou está submetido a restrições contratuais, o terreno nem sempre pode ser oferecido ao banco como garantia convencional.

A PPP de habitação precisa criar garantias alternativas, como cessão de recebíveis, direitos emergentes do contrato, contas vinculadas, fundos garantidores ou mecanismos que permitam aos financiadores intervir temporariamente na concessionária em caso de dificuldade financeira.

A própria Lei de PPPs admite que financiadores assumam o controle ou a administração temporária da sociedade de propósito específico para assegurar a continuidade dos serviços. Essa proteção é especialmente importante em contratos habitacionais, nos quais o banco não pode simplesmente executar o terreno e retirar os moradores.

Outro risco está na entrega das áreas. Se o prazo da concessão começar antes de o terreno estar regularizado, desocupado e disponível, a empresa perde parte do período destinado à amortização dos investimentos sem conseguir iniciar as obras.

Por isso, o contrato deve vincular o início das obrigações e dos prazos de cada empreendimento à transferência efetiva da área. Desapropriações, contaminação do solo, ocupações, licenciamento e interferências nas redes de água, esgoto e energia precisam ter responsáveis claramente definidos.

Recife testa PPP de habitação com locação social

O Recife adotou uma configuração diferente. A PPP Morar no Centro prevê 1.128 unidades distribuídas em seis empreendimentos e combina quatro projetos de locação social com dois destinados à população de baixa renda e ao mercado popular.

O contrato terá duração de 25 anos e inclui implantação, manutenção, operação, gestão de carteira, administração condominial, trabalho social e desenvolvimento comunitário. A contraprestação mensal máxima foi fixada em R$ 2,45 milhões.

Em julho, o Consórcio Habitação Social Recife, formado por CPM Construtora e Sanco Engenharia, foi declarado vencedor. O resultado publicado no Diário Oficial manteve a contraprestação no valor máximo previsto pelo edital.

Isso não representa, por si só, irregularidade. Mostra, entretanto, que a disputa não produziu redução no teto de pagamento estabelecido pelo município. A fiscalização do contrato precisará demonstrar se o preço será compensado pela qualidade dos imóveis, pela manutenção durante 25 anos e pelos benefícios associados à reocupação do Centro.

A locação social modifica a lógica da política habitacional. Em vez de transferir imediatamente a propriedade, o município mantém os imóveis vinculados ao programa e oferece moradia mediante pagamento compatível com a renda familiar.

Esse modelo pode atender pessoas que não possuem renda ou estabilidade financeira para assumir um financiamento de longo prazo. Também permite preservar permanentemente parte do estoque habitacional em regiões centrais, evitando que unidades subsidiadas sejam posteriormente revendidas pelo valor de mercado.

Para funcionar, porém, a PPP de habitação precisa definir quem assume o risco de vacância, inadimplência, danos aos imóveis e variação na renda dos moradores. Se a concessionária não puder selecionar livremente os ocupantes, não deverá receber integralmente riscos que dependem das decisões do poder público.

O modelo não substitui o Minha Casa, Minha Vida

Uma das vantagens da PPP de habitação é permitir a combinação de diferentes fontes de recursos. O projeto pode reunir contraprestações municipais, aportes estaduais, financiamento federal, pagamentos das famílias, receitas de áreas comerciais e subsídios do Minha Casa, Minha Vida.

Essa arquitetura amplia a capacidade de investimento, mas também aumenta a complexidade. Cada fonte possui regras, prazos, garantias e critérios próprios. Um atraso na liberação de recursos federais pode comprometer o cronograma da concessionária. Uma mudança no perfil das famílias pode afetar a receita prevista. Uma área comercial sem demanda pode deixar de produzir o resultado estimado.

O Minha Casa, Minha Vida continua sendo o principal instrumento nacional de produção habitacional. A PPP deve ser utilizada quando a contratação integrada e a prestação prolongada de serviços produzirem vantagens que uma obra convencional não consegue oferecer.

Não faz sentido contratar uma concessão de 20 ou 25 anos apenas para construir apartamentos. A justificativa está na manutenção, na locação social, na gestão condominial, no trabalho comunitário e na capacidade de coordenar habitação com recuperação urbana.

Escala dependerá de contratos replicáveis

O déficit de 5,77 milhões de domicílios não será resolvido por projetos isolados. Para ganhar escala, a PPP de habitação precisará deixar de ser uma modelagem quase artesanal, preparada de maneira diferente para cada cidade.

Alguns elementos podem ser padronizados: critérios de desempenho, matriz de riscos, procedimentos para entrega dos terrenos, formas de garantia, regras para financiadores, modelos de locação social e indicadores de manutenção.

A padronização não significa repetir o mesmo projeto arquitetônico ou ignorar as características de cada território. Significa evitar que todos os municípios precisem começar do zero para resolver problemas jurídicos e financeiros já enfrentados por São Paulo e Recife.

Também será necessário ampliar a participação do mercado. Contratos que atraem apenas um concorrente reduzem a possibilidade de obter descontos e testar diferentes soluções técnicas. Editais excessivamente complexos podem afastar incorporadoras acostumadas a construir habitações populares, enquanto exigências insuficientes podem atrair empresas sem capacidade para operar os empreendimentos por décadas.

A cobertura de projetos realizada pelo Hub PPP deverá observar não apenas quantas unidades foram anunciadas, mas quantas foram entregues, onde estão localizadas, quanto custaram ao poder público e como permanecem depois da ocupação.

O verdadeiro teste começa com os moradores

A entrega dos primeiros empreendimentos representa um avanço, mas ainda não permite declarar que o modelo está consolidado. Uma PPP de habitação precisa ser avaliada durante anos, e não apenas no momento da inauguração.

O teste será verificar se os edifícios continuarão conservados, se os elevadores permanecerão funcionando, se os custos condominiais serão compatíveis com a renda das famílias e se os moradores conseguirão permanecer próximos dos empregos e serviços que justificaram a escolha da localização.

Também será necessário comparar o custo total da parceria com outras alternativas. Uma PPP pode acelerar investimentos e distribuir pagamentos ao longo do tempo, mas cria compromissos fiscais que atravessam diferentes governos. O desembolso não desaparece; ele apenas muda de momento e passa a depender do desempenho contratual.

São Paulo demonstra que a PPP de habitação pode alcançar milhares de unidades e integrar moradia com infraestrutura urbana. Recife avança ao testar a locação social dentro de uma concessão de 25 anos. As duas experiências mostram que a iniciativa privada pode assumir responsabilidades além da construção.

O modelo ainda engatinha porque habitação não é uma infraestrutura comum. Uma rodovia pode ser medida pelo pavimento e pelo tráfego. Uma moradia precisa continuar funcionando como casa, condomínio e parte da cidade. É nessa etapa, depois da obra concluída e das fotografias de entrega, que a parceria começa a mostrar se realmente produziu valor público.

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