Juros e insegurança jurídica pressionam investimentos em saneamento

Custo do crédito, decisões judiciais e incertezas contratuais influenciam a participação em PPPs e Concessões, enquanto setor precisa ampliar a cobertura até 2033
Investimentos em saneamento com estação de tratamento e engenheiro analisando projeto financeiro

Os juros elevados e as incertezas jurídicas passaram a ocupar uma posição central nas decisões sobre investimentos em saneamento no Brasil. Os projetos exigem grandes volumes de capital, possuem contratos que podem ultrapassar 30 anos e dependem de regras estáveis sobre tarifas, contraprestações, revisões, indenizações e metas. Quando o custo do financiamento ou a percepção de risco aumenta, os efeitos aparecem nas propostas e na capacidade de mobilizar recursos para as obras.

A avaliação foi apresentada pelo advogado Alexandre Leite, sócio da área de Energia e Infraestrutura do Dias Carneiro Advogados, durante evento em São Paulo. Segundo ele, o mercado de capitais ganhou espaço no financiamento, especialmente por meio das debêntures incentivadas, mas os juros e as controvérsias contratuais podem reduzir o interesse por determinados investimentos em saneamento.

O diagnóstico não significa que os investimentos em saneamento tenham deixado de atrair empresas, bancos e fundos. A situação varia conforme a qualidade da modelagem, o tamanho do projeto, as garantias oferecidas, a previsibilidade regulatória, a distribuição de riscos e as condições de financiamento disponíveis. Projetos estruturados em condições diferentes podem apresentar resultados distintos, mesmo submetidos ao mesmo cenário econômico.

Dados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social indicam que o setor permanece em expansão. A instituição projeta média anual de investimentos em saneamento de R$ 42,4 bilhões entre 2025 e 2029, ante R$ 23,7 bilhões entre 2020 e 2024. A projeção considera contratos assinados e novas PPPs e Concessões, mas o volume esperado continua abaixo das necessidades da universalização.

Selic de 13,75% afeta investimentos em saneamento

O Comitê de Política Monetária do Banco Central reduziu a taxa Selic para 13,75% ao ano em setembro de 2026. Apesar do recuo em relação aos níveis anteriores, a taxa básica continua servindo de referência para empréstimos, títulos privados e decisões de alocação de capital. A página de comunicados do Copom reúne as decisões e as justificativas apresentadas pelo Banco Central.

Os investimentos em saneamento são comparados ao rendimento de alternativas disponíveis no mercado. Quando títulos públicos oferecem remuneração maior, os projetos precisam apresentar relação entre risco e retorno capaz de justificar a imobilização do capital por décadas.

A estrutura dos investimentos em saneamento normalmente combina capital dos acionistas, financiamentos bancários, debêntures e recursos de bancos de desenvolvimento. Taxas maiores elevam as despesas financeiras e reduzem a capacidade de endividamento. Isso pode diminuir a outorga, limitar o deságio tarifário ou aumentar a contraprestação necessária em uma PPP.

Os investimentos em saneamento possuem uma característica adicional: parte relevante das obras precisa ser realizada nos primeiros anos, enquanto as receitas são recebidas gradualmente. Redes, reservatórios, estações de tratamento, interceptores e ligações domiciliares são implantados antes que toda a base de usuários esteja conectada e gere o fluxo financeiro previsto.

Esse intervalo exige crédito de longo prazo durante a construção. Se a dívida fica mais cara, o valor presente das receitas futuras diminui. A modelagem dos investimentos em saneamento precisa recalcular custo de capital, serviço da dívida, reservas e índices de cobertura.

Custo financeiro chega à tarifa, à outorga ou à contraprestação

O efeito dos juros depende do modelo de contratação. Em uma Concessão comum, a remuneração vem principalmente das tarifas pagas pelos usuários. A proposta pode ser julgada pelo menor valor tarifário, pela maior outorga, pela combinação de critérios ou por outra fórmula prevista no edital. O financiamento precisa caber dentro da receita projetada para toda a vigência contratual.

Em uma PPP de saneamento, o parceiro privado pode receber contraprestações da administração ou da companhia pública responsável pela contratação. O pagamento costuma estar vinculado à disponibilidade da infraestrutura e ao cumprimento de indicadores. Nesse caso, juros mais altos podem elevar a contraprestação máxima necessária ou exigir um aporte maior durante a implantação.

O custo financeiro não é automaticamente transferido aos usuários ou ao poder público depois da licitação. A proposta assume as condições econômicas da data de referência e os riscos atribuídos ao parceiro privado. Uma recomposição posterior depende do contrato e da comprovação do desequilíbrio.

Durante a modelagem dos investimentos em saneamento, o poder concedente pode atualizar premissas para preservar a viabilidade e a competição. Cronograma, garantias, outorga, mecanismo tarifário e carência podem ser revistos, desde que as mudanças sejam justificadas e incorporadas antes das propostas.

Os investimentos em saneamento também são afetados pela inflação. Muitos contratos utilizam índices de preços para reajustar tarifas e contraprestações, enquanto parte da dívida pode ser corrigida pelo IPCA ou referenciada à Selic. A compatibilidade entre receitas e obrigações financeiras reduz o descasamento, mas não elimina riscos de construção, demanda, inadimplência e variação de custos.

Debêntures ampliaram fontes para investimentos em saneamento

As debêntures incentivadas se consolidaram como uma das fontes utilizadas para financiar infraestrutura. Esses títulos permitem que concessionárias captem recursos com investidores do mercado de capitais e apliquem o dinheiro em projetos considerados prioritários. O benefício tributário concedido aos compradores pode contribuir para reduzir o custo da emissão.

A ampliação das fontes diminui a dependência de um único banco, mas não torna o financiamento imune aos juros. O investidor compara a remuneração da debênture com títulos públicos e outros ativos privados. Quanto maior a taxa de referência ou o risco percebido, maior tende a ser o retorno solicitado para comprar os papéis.

Além das debêntures, os investimentos em saneamento podem utilizar crédito do BNDES, recursos do FGTS, financiamentos da Caixa, bancos comerciais, agências multilaterais e capital dos acionistas. Grandes investimentos em saneamento costumam combinar instrumentos com prazos, garantias e custos diferentes.

O BNDES criou o Pacote de Estabilização de Funding para Infraestrutura, que inclui uma modalidade de financiamento de médio prazo associada a uma garantia de subscrição futura de debêntures. O programa atende saneamento, energia, mobilidade e logística, possui dotação de R$ 10 bilhões e busca organizar o financiamento inicial e a substituição posterior da dívida.

O desenho financeiro dos investimentos em saneamento deve ser conhecido antes do edital. Bancos analisam matriz de riscos, receitas, garantias, capitalização e condições para substituir dívidas. Informações apresentadas somente depois da licitação podem dificultar o fechamento financeiro.

No fechamento financeiro, a concessionária comprova a contratação dos recursos. A vencedora ainda pode depender de condições precedentes para acessar a dívida. Por isso, os editais preveem prazos, garantias e penalidades relacionados ao financiamento e ao início dos investimentos em saneamento.

Segurança jurídica envolve contrato, regulação e decisões judiciais

No setor de saneamento, segurança jurídica não corresponde à ausência de mudanças durante décadas. O conceito está relacionado à existência de regras conhecidas para tratar eventos que podem ocorrer ao longo do contrato. Revisões tarifárias, alterações legais, novas exigências ambientais, variações de demanda e atrasos na entrega de áreas precisam ter procedimentos e responsabilidades definidos.

Nos investimentos em saneamento, bancos e empresas analisam quem assumirá cada risco e como eventual desequilíbrio será medido. A matriz pode atribuir ao parceiro privado engenharia, operação e financiamento, mantendo com o poder público desapropriações, alterações unilaterais e obrigações específicas sobre ativos existentes.

Redações genéricas podem produzir interpretações divergentes entre concessionária, poder concedente, regulador, tribunal de contas e Judiciário. O conflito também pode decorrer de dúvidas sobre indicadores, fórmulas de cálculo ou documentos exigidos para reconhecer um direito.

A previsibilidade regulatória influencia os investimentos em saneamento porque as tarifas e os padrões de serviço são acompanhados por entidades infranacionais. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, o país possui 83 entidades cadastradas no setor, com alcance aproximado de 80% dos municípios para água e esgoto.

A ANA publica normas de referência para reduzir diferenças sobre temas como regulação tarifária, metas de universalização, padrões de prestação, contabilidade regulatória e indenização de ativos. A adoção ocorre pelas agências estaduais, municipais e intermunicipais, respeitadas as competências dos titulares e as características de cada contrato.

Entre os casos recentes está a suspensão da Concessão de saneamento de São Miguel do Oeste, determinada pelo STF em uma disputa sobre a indenização de ativos da prestadora anterior. O procedimento permanece interrompido enquanto se discute o valor e a aplicação das regras para a transferência dos serviços.

O caso mostra como uma controvérsia patrimonial pode afetar o cronograma de investimentos em saneamento. A solução exige inventário, avaliação dos bens reversíveis, definição do responsável pelo pagamento e coordenação entre a indenização e a entrada do novo operador. A suspensão cautelar, contudo, não representa decisão definitiva sobre todos os argumentos do processo.

Relação com municípios acrescenta etapas aos projetos

Os municípios são titulares dos serviços de interesse local, enquanto estados e municípios podem compartilhar a titularidade em estruturas regionalizadas. Esse arranjo exige coordenação entre governos, colegiados, companhias de saneamento e agências reguladoras. A mudança de uma administração municipal não encerra os contratos existentes, mas pode alterar prioridades e gerar discussões sobre fiscalização, tarifas, obras ou obrigações locais.

Contratos de longo prazo precisam estabelecer governança, procedimentos de solução de controvérsias, relatórios de desempenho e regras para revisões. A arbitragem pode ser prevista para direitos patrimoniais disponíveis, observados os requisitos legais.

A regionalização reúne municípios com condições econômicas e operacionais diferentes. O modelo amplia a escala dos investimentos em saneamento, mas exige clareza sobre subsídios cruzados, metas por município, obras obrigatórias e decisões dos colegiados.

Documento do Ministério das Cidades informa que 1.078 municípios ainda não atendiam aos condicionantes de regionalização para água e esgoto. O mesmo parecer registrou que 87% das propostas contratadas no Novo PAC possuíam cláusulas suspensivas relacionadas ao cumprimento das exigências legais para acesso aos recursos federais.

Essas pendências não se limitam aos investimentos privados. Elas também podem impedir o desembolso de recursos públicos e atrasar obras. Regularização contratual, governança regional e capacidade técnica dos titulares fazem parte das condições necessárias para executar investimentos em saneamento independentemente da origem do capital.

Baixa concorrência nos investimentos em saneamento pode exigir revisão

O número de participantes não deve ser analisado isoladamente. Um certame com um único proponente pode ser válido se cumprir os requisitos legais e apresentar proposta vantajosa. A ausência de interessados impede a contratação e exige reavaliação antes de uma nova tentativa.

Entre os fatores examinados estão tarifa máxima, outorga mínima, garantias, cronograma de investimentos, riscos ambientais, qualidade dos dados, condições dos ativos e prazo para preparar as propostas. O momento econômico e a disponibilidade de financiamento também influenciam a decisão dos grupos capazes de disputar o contrato.

Juros maiores afetam principalmente investimentos em saneamento com margens reduzidas, obras iniciais concentradas e pouca flexibilidade. Incertezas sobre desapropriações, licenciamento, ativos ou reajustes aumentam o retorno exigido. Quando os riscos se acumulam, o concorrente pode reduzir sua proposta ou desistir.

A revisão do edital não deve eliminar obrigações essenciais para atrair participantes. Ela deve verificar se os riscos foram atribuídos à parte capaz de administrá-los e se os valores refletem condições atualizadas. Alterações relevantes podem exigir novo prazo para propostas.

A competição pelos investimentos em saneamento também depende da habilitação. Requisitos insuficientes podem admitir grupos sem capacidade de execução, enquanto exigências desproporcionais restringem a disputa. A modelagem deve relacionar cada condição à complexidade do contrato.

Investimentos em saneamento exigem R$ 366,5 bilhões até 2033

O Marco Legal do Saneamento estabelece atendimento de 99% da população com água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto até o final de 2033. As metas devem ser incorporadas aos contratos, acompanhadas por indicadores e compatibilizadas com a capacidade econômico-financeira da prestação.

Dados do SINISA referentes a 2024 mostram que 84,1% da população total era atendida com abastecimento de água. A rede coletora de esgoto alcançava 62,3%, enquanto 85,2% do volume coletado recebia tratamento. Os índices nacionais escondem diferenças entre áreas urbanas e rurais, regiões e municípios.

O Ministério das Cidades estima necessidade de R$ 882,4 bilhões entre 2023 e 2033 para os quatro componentes do saneamento. Somente água e esgoto demandariam R$ 366,5 bilhões, equivalentes a aproximadamente R$ 36,65 bilhões por ano. O cálculo inclui medidas estruturais e estruturantes necessárias para ampliar e sustentar os serviços.

O BNDES projeta investimentos em saneamento de R$ 42,4 bilhões por ano no cenário-base e R$ 45,2 bilhões no cenário otimista entre 2025 e 2029. A metodologia inclui Concessões contratadas e projetos em estruturação.

A comparação mostra que a disponibilidade de capital precisará ser mantida durante vários anos. Não basta realizar os leilões. Os contratos precisam chegar ao fechamento financeiro, iniciar obras, cumprir metas intermediárias e preservar a operação durante todo o período. Atrasos na implantação deslocam investimentos e reduzem o tempo disponível até 2033.

Levantamento publicado pelo Hub PPP identificou 31 projetos de Concessões de saneamento com R$ 66,3 bilhões previstos. A carteira reúne iniciativas em fases diferentes, de estudos e consultas públicas a editais e licitações. Os valores representam previsões e somente se tornam obrigações após a contratação.

Estruturação define a capacidade de atrair capital

A participação de investidores não depende apenas da redução da Selic. Projetos preparados em ambiente de juros elevados podem atrair propostas quando apresentam dados consistentes, contratos executáveis, garantias adequadas e riscos mensuráveis. Da mesma forma, taxas menores não corrigem indefinições jurídicas, estudos incompletos ou obrigações sem fonte de pagamento.

Na prática, a estruturação precisa integrar engenharia, demanda, tarifas, aspectos sociais, regulação, meio ambiente, direito e financiamento. O plano de investimentos deve indicar quando cada obra será realizada, quais metas serão verificadas e como o concessionário será remunerado. A matriz de riscos deve corresponder às premissas econômico-financeiras.

O diálogo com financiadores pode identificar cláusulas que dificultam o crédito. Consultas públicas permitem contribuições de empresas, usuários, municípios e entidades técnicas. A administração deve responder às manifestações e justificar as escolhas do edital.

Os investimentos em saneamento continuarão expostos a variações econômicas ao longo de contratos extensos. Por isso, reajustes, revisões ordinárias, revisões extraordinárias e mecanismos de reequilíbrio precisam ter prazos, metodologias e documentos definidos. A existência dessas regras não garante o reconhecimento de qualquer pedido, mas estabelece como ele será avaliado.

O cenário atual combina custo de capital ainda elevado, carteira crescente de projetos e prazo legal para universalização. A evolução dos investimentos em saneamento dependerá da conclusão das modelagens, do resultado das licitações, da contratação dos financiamentos e da execução das obras. Para cada projeto, o nível de competição será resultado da combinação entre retorno esperado, riscos assumidos e segurança oferecida pelo contrato.

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