
O Aeroporto de Guarulhos passou a ocupar o centro das negociações sobre a reestruturação financeira da Invepar. Acionistas e credores discutem uma proposta que combina entrada de capital, substituição de dívidas e possibilidade de conversão futura de crédito em ações. A operação ainda não foi aprovada e seus termos permanecem sujeitos às decisões societárias, à documentação definitiva e às autorizações aplicáveis.
A Invepar possui participação indireta de 40,8% no Aeroporto de Guarulhos. A holding controla 80% da Aeroporto de Guarulhos Participações S.A., a Grupar, que detém 51% da Concessionária responsável pelo terminal. Os 49% restantes da empresa operacional pertencem à Infraero. A estrutura significa que uma mudança no capital da Invepar pode modificar o comando econômico do acionista privado, mas não representa, por si só, a venda do aeroporto ou a transferência imediata da Concessão.
A discussão ocorre enquanto a Invepar administra vencimentos financeiros depois de um ciclo de venda de ativos. A companhia reduziu sua presença em rodovias e mobilidade urbana, porém manteve obrigações relacionadas a dívidas e garantias de operações anteriores. Nesse cenário, o Aeroporto de Guarulhos permaneceu como o principal ativo operacional do grupo e como referência para as negociações com credores.
Os dados do primeiro semestre de 2026 mostram a dimensão do terminal. O Aeroporto de Guarulhos movimentou 23,2 milhões de passageiros, crescimento de 4,1% em comparação com o mesmo período de 2025. As receitas brutas tarifárias e não tarifárias alcançaram R$ 2,24 bilhões. Os números pertencem à operação da Concessionária e não devem ser confundidos com o caixa disponível na holding Invepar.
Aeroporto de Guarulhos ocupa o centro da estrutura da Invepar
A estrutura acionária do Aeroporto de Guarulhos foi formada na primeira grande rodada federal de Concessões aeroportuárias. A União celebrou o contrato em 14 de junho de 2012, e a operação concedida começou em 11 de julho daquele ano. A Grupar ficou com 51% da Sociedade de Propósito Específico, enquanto a Infraero recebeu 49%, modelo adotado também nos aeroportos de Brasília e Viracopos.
Dentro da Grupar, a Invepar detém 80% das ações e a Airports Company South Africa, conhecida pela sigla ACSA, possui 20%. Ao multiplicar a participação de 80% pelos 51% mantidos pela Grupar na Concessionária, chega-se aos 40,8% de participação indireta da Invepar no Aeroporto de Guarulhos. A Infraero continua como acionista direta e minoritária da empresa que executa o contrato.
A Invepar, por sua vez, tem quatro acionistas. De acordo com a composição acionária divulgada pela companhia, Previ, Petros, Funcef e o FIP Yosemite possuem, cada um, 25% das ações ordinárias, aquelas que concentram o direito de voto. Quando consideradas também as ações preferenciais, a Previ aparece com 25,6% do capital total, o Yosemite com 24,4%, a Petros com 25% e a Funcef com 25%.
Esse equilíbrio distribui o poder de decisão e exige composição entre os acionistas para mudanças relevantes. Uma proposta que envolva aumento de capital, emissão de títulos conversíveis ou alteração das regras de governança precisa observar o estatuto, o acordo de acionistas e os quóruns correspondentes. Por isso, a reestruturação relacionada ao Aeroporto de Guarulhos depende de mais do que uma negociação entre a companhia e um credor.
A relevância do terminal também decorre do espaço que ele passou a ocupar no portfólio. Após sucessivos desinvestimentos, a Invepar preservou sua posição no Aeroporto de Guarulhos, uma participação remanescente na Linha Amarela e outros interesses em processo de reorganização. O aeroporto concentra atividade operacional, receitas tarifárias, receitas comerciais e compromissos de investimento de longo prazo.
Proposta de capitalização divide acionistas da Invepar
A proposta em discussão foi estruturada para combinar R$ 200 milhões de aporte e aproximadamente R$ 655 milhões em novo financiamento. O investimento inicial seria realizado por um fundo de participações ligado à operação e daria ao veículo uma fatia de 25% da Invepar. O empréstimo teria como finalidade substituir parte da dívida bancária existente e estender os vencimentos até 2033.
As condições apresentadas aos acionistas preveem remuneração equivalente ao CDI acrescido de 5% ao ano. A dívida bancária que seria substituída tem vencimento em outubro de 2027 e custo inferior, próximo do CDI acrescido de 1% ao ano. A troca, portanto, alongaria o prazo, mas elevaria o custo financeiro. Os valores, taxas e garantias ainda dependem dos documentos finais da transação.
Outro componente da proposta é a possibilidade de converter o financiamento em ações a partir de janeiro de 2030. O percentual resultante dependeria do saldo devedor e do valor atribuído à companhia no momento da conversão. Em uma das simulações apresentadas nas negociações, o fundo poderia alcançar aproximadamente 76% do capital da Invepar. Esse resultado é um cenário contratual, não uma participação já adquirida.
O desenho também prevê direitos de indicação para cargos de governança na Invepar e no Aeroporto de Guarulhos. Essas indicações estariam vinculadas à conclusão da operação e às aprovações necessárias. Até que as condições precedentes sejam cumpridas, a composição societária e os órgãos de administração permanecem submetidos às regras atuais.
O Bradesco aparece como coordenador da proposta e como um dos principais credores da holding. O banco não confirmou publicamente os detalhes. Também não foi divulgada a composição definitiva do fundo que faria o aporte e concederia o financiamento. Por esse motivo, os termos devem ser tratados como uma negociação em curso, e não como uma transação concluída sobre o Aeroporto de Guarulhos.
Dívida da holding exige leitura separada do caixa da Concessionária
A dívida financeira da Invepar no nível da holding estava próxima de R$ 1,4 bilhão em junho de 2026, enquanto caixa e aplicações de curto prazo somavam cerca de R$ 126 milhões. Desse passivo, aproximadamente R$ 396 milhões correspondiam a debêntures com vencimento em dezembro de 2026. Outros R$ 1 bilhão eram formados principalmente por empréstimos bancários com vencimento em outubro de 2027.
Os números consolidados divulgados pela companhia são diferentes porque incluem controladas e a participação no Aeroporto de Guarulhos. No encerramento do primeiro semestre, a dívida bruta consolidada era de R$ 2,405 bilhões, com R$ 1,133 bilhão classificado no curto prazo. As disponibilidades consolidadas somavam R$ 4,688 bilhões, compostas por caixa e aplicações financeiras.
Essa disponibilidade não representa dinheiro livre para pagamento das obrigações da holding. Parte relevante dos recursos está nas empresas operacionais, vinculada a contratos, financiamentos, contas de reserva e compromissos da Concessão. A demonstração financeira da própria Concessionária registrava R$ 597,8 milhões em caixa e R$ 3,92 bilhões em aplicações financeiras em junho, incluindo valores vinculados à operação do Aeroporto de Guarulhos.
A separação é necessária porque a Sociedade de Propósito Específico tem patrimônio, receitas, dívidas e obrigações próprios. Os recursos arrecadados no Aeroporto de Guarulhos atendem ao contrato, ao serviço da dívida da Concessionária, à outorga, às despesas operacionais e aos investimentos. A Invepar se beneficia economicamente de sua participação, mas não pode tratar todo o caixa consolidado como disponibilidade imediata da controladora.
O resultado do segundo trimestre também foi afetado por uma provisão de aproximadamente R$ 190 milhões relacionada a compromissos assumidos na venda da Concessionária Auto Raposo Tavares. Esse registro evidencia como obrigações de desinvestimentos anteriores continuam alcançando a holding, mesmo depois da transferência dos ativos. A reestruturação busca organizar esses passivos sem modificar automaticamente a operação do Aeroporto de Guarulhos.
Mudança societária não transfere a Concessão do Aeroporto de Guarulhos
Uma eventual entrada de novo investidor na Invepar ocorreria inicialmente no capital da holding. A Concessão do Aeroporto de Guarulhos permanece formalmente com a Concessionária do Aeroporto Internacional de Guarulhos S.A., empresa constituída para ampliar, manter e explorar a infraestrutura aeroportuária. A União continua titular do serviço e dos bens vinculados ao contrato.
Mesmo que o novo fundo alcance o controle da Invepar no futuro, a cadeia societária continuará com diferentes níveis. A Invepar é acionista da Grupar, que controla 51% da Concessionária. A ACSA mantém 20% da Grupar, e a Infraero permanece com 49% da empresa operacional. Qualquer efeito sobre o bloco de controle terá de ser examinado de acordo com essa estrutura.
O contrato da Concessão contém regras para transferência de ações, alteração do controle e substituição de integrantes do grupo controlador. Operações que produzam mudança de controle dependem da análise e da anuência da Agência Nacional de Aviação Civil. A agência pode verificar capacidade técnica, regularidade jurídica, situação econômico-financeira e preservação das obrigações assumidas no leilão.
Como a proposta ainda está na esfera da Invepar, a necessidade e o alcance de uma autorização regulatória dependerão da forma final da operação. Um aporte minoritário sem mudança de controle pode receber tratamento diferente de uma conversão capaz de entregar a maioria das ações e os direitos de comando. A avaliação deverá considerar os efeitos efetivos sobre o Aeroporto de Guarulhos, e não apenas o nome dado à transação.
O procedimento societário também não altera automaticamente tarifas, prazo, metas de qualidade, pagamentos de outorga ou investimentos. Esses elementos estão no contrato celebrado com a Anac e em seus termos aditivos. Para modificá-los, seriam necessários os instrumentos jurídicos e regulatórios correspondentes. A mudança de um acionista não substitui a Concessionária nem libera o Aeroporto de Guarulhos das obrigações vigentes.
Contrato mantém investimentos e obrigações até 2033
O contrato original do Aeroporto de Guarulhos tinha prazo de 20 anos, com encerramento previsto para julho de 2032 e possibilidade de prorrogação limitada. Em dezembro de 2024, o 11º termo aditivo estendeu a vigência por 16 meses. O término passou para 23 de novembro de 2033, preservada a possibilidade residual de extensão prevista no instrumento atualizado.
Em contrapartida, a Concessionária assumiu aproximadamente R$ 1,4 bilhão em investimentos adicionais. O programa envolve ampliação de capacidade, intervenções operacionais, segurança e melhorias definidas no Plano de Exploração Aeroportuária. No primeiro semestre de 2026, os investimentos no Aeroporto de Guarulhos somaram R$ 260,4 milhões, aumento de 77% em relação ao mesmo intervalo de 2025.
Entre as obras informadas estão um novo píer no Terminal 3, saídas rápidas para conectar pistas de táxi às pistas de pouso e decolagem e equipamentos de inspeção e segurança. A execução segue o cronograma contratual, independentemente das negociações entre acionistas e credores da Invepar. A Anac permanece responsável por fiscalizar o cumprimento das obrigações da Concessão.
O Aeroporto de Guarulhos também participa da nova etapa das Concessões aeroportuárias, marcada por contratos mais maduros, expansão de receitas comerciais e necessidade de compatibilizar investimentos com demanda. A reestruturação do acionista privado ocorre dentro desse ambiente, mas o contrato federal continua sendo a referência para a prestação do serviço.
Movimento do Aeroporto de Guarulhos alcança 23,2 milhões de passageiros
O Aeroporto de Guarulhos recebeu 23,213 milhões de passageiros entre janeiro e junho de 2026, ante 22,307 milhões no mesmo período do ano anterior. O tráfego internacional cresceu 4,9%, para 8,417 milhões de passageiros. O movimento doméstico avançou 3,6%, chegando a 14,797 milhões.
A movimentação de aeronaves atingiu 148.941 pousos e decolagens no semestre, alta de 1%. O volume de cargas chegou a 178.077 toneladas, crescimento de 3,8%. Os indicadores ajudam a dimensionar as atividades que geram receitas aeroportuárias, comerciais, de armazenagem e capatazia no Aeroporto de Guarulhos.
Segundo as informações financeiras da Concessionária, as receitas brutas tarifárias foram de R$ 1,232 bilhão no primeiro semestre. As receitas não tarifárias, que incluem exploração comercial de áreas, varejo, alimentação, publicidade, estacionamento e outros serviços, somaram R$ 1,009 bilhão. Depois das deduções, a receita líquida de serviços tarifários e não tarifários atingiu R$ 1,953 bilhão.
A Concessionária registrou lucro líquido de R$ 40,1 milhões no semestre, abaixo dos R$ 160,7 milhões contabilizados no mesmo período de 2025. O resultado financeiro incorpora juros, atualização da outorga e outras despesas próprias do contrato. Esses números mostram a operação econômica do Aeroporto de Guarulhos, mas não definem isoladamente o valor da participação da Invepar ou as condições da capitalização proposta.
Desinvestimentos reduziram o portfólio da Invepar
A Invepar foi criada em 2000 por Previ e OAS e iniciou sua trajetória com participações na Linha Amarela, no Rio de Janeiro, e na Concessionária Litoral Norte, na Bahia. Petros e Funcef entraram no capital nos anos seguintes, ampliando a capacidade financeira do grupo. A expansão incluiu rodovias, sistemas de mobilidade e, em 2012, o Aeroporto de Guarulhos.
Depois desse ciclo, a holding iniciou uma sequência de desinvestimentos. Em 2016, vendeu a operação da Via Parque Rímac, no Peru. Em 2020, transferiu a Auto Raposo Tavares para um novo controlador. No ano seguinte, MetrôRio e MetrôBarra foram entregues a credores em uma operação que extinguiu aproximadamente R$ 1,8 bilhão em debêntures.
A Concessionária Litoral Norte foi vendida em 2024 por R$ 216,1 milhões. Em 2025, a Invepar alienou sua participação remanescente no VLT Carioca. No fim daquele ano, transferiu 60,3% da Lamsa, operadora da Linha Amarela, para liquidar cerca de R$ 350 milhões em dívidas, mantendo uma participação minoritária de 39,7%.
As operações reduziram a dívida e a quantidade de ativos, mas não eliminaram garantias, contingências e compromissos assumidos pela holding. Isso explica por que a companhia ainda precisa negociar com credores mesmo após anos de venda de participações. Também explica a centralidade atual do Aeroporto de Guarulhos, que permaneceu no portfólio durante a reorganização.
O movimento é diferente de outras operações recentes do setor, como a negociação da participação da Infraero no Aeroporto de Confins. Em Confins, a transação em estudo alcança diretamente a fatia da estatal na Concessionária. No caso do Aeroporto de Guarulhos, a proposta começa no capital de uma holding que participa indiretamente do acionista privado.
Próximas etapas dependem de decisão societária e regulatória
A capitalização exige aprovação dentro da Invepar. Em assembleia encerrada em 20 de julho, Previ e Yosemite apoiaram a ampliação do limite de capital autorizado, enquanto Petros e Funcef se posicionaram contra a mudança apresentada. Como os quatro acionistas possuem 25% das ações com direito a voto, o empate impediu a aprovação.
A alteração permitiria que o conselho deliberasse sobre aumentos de capital dentro de um limite previamente aprovado e também abriria espaço para instrumentos conversíveis. Sem essa autorização ou outra solução societária, a operação precisa voltar aos acionistas. As partes continuam discutindo estrutura, custo, garantias, governança e possibilidade de diluição.
Se houver consenso, a etapa seguinte será transformar a proposta em contratos definitivos. Os documentos deverão especificar quem fará o aporte, a composição do fundo, o cronograma de desembolso, os eventos de conversão, os direitos de indicação e as condições precedentes. Também deverão definir quais aprovações serão solicitadas antes de qualquer efeito sobre o Aeroporto de Guarulhos.
Até a conclusão dessas etapas, não existe mudança formal no controle da Invepar nem na Concessionária. O Aeroporto de Guarulhos continua operado pela mesma Sociedade de Propósito Específico, com Grupar e Infraero em sua composição acionária. A Concessão mantém prazo, fiscalização, investimentos e obrigações previstos no contrato e nos termos aditivos em vigor.














