Investimentos da CEEE Equatorial chegam a R$ 3,8 bilhões, mas qualidade ainda desafia concessão

Cinco anos após a privatização, distribuidora ampliou redes, subestações e automação no Rio Grande do Sul. O avanço dos indicadores, porém, ainda não foi suficiente para retirar a empresa da última posição no ranking de continuidade da Aneel.

Equipe técnica da CEEE Equatorial realizando manutenção ou modernização da rede de distribuição de energia no Rio Grande do Sul.

Os investimentos da CEEE Equatorial alcançaram R$ 3,8 bilhões entre 2021 e 2025, mais que o dobro do montante estimado quando o controle da antiga distribuidora estadual foi transferido à iniciativa privada. O volume revela uma recuperação da capacidade financeira e operacional da companhia, mas ainda não se converteu em uma posição favorável nos indicadores nacionais de qualidade.

A distribuidora terminou 2025 na última colocação do ranking de continuidade da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) entre as empresas de grande porte. O resultado expõe uma distância importante entre mobilizar capital, executar obras e entregar ao consumidor uma melhoria consistente no fornecimento.

A companhia atende mais de 2 milhões de clientes em 72 municípios do Rio Grande do Sul. Para 2026, prevê aplicar mais R$ 1 bilhão na expansão, modernização e preparação da rede para eventos climáticos severos.

O balanço dos cinco primeiros anos permite uma avaliação mais ampla da privatização: a entrada do novo controlador restabeleceu a capacidade de investimento, mas a qualidade de uma concessão não pode ser medida apenas pelo dinheiro aplicado.

Investimentos da CEEE Equatorial superam previsão da privatização

Quando o leilão da CEEE-D foi realizado, em março de 2021, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social estimava aproximadamente R$ 1,6 bilhão em novos investimentos durante os cinco anos seguintes.

O comunicado divulgado pelo BNDES após o leilão também informava que a distribuidora permaneceria responsável por mais de R$ 3,5 bilhões em dívidas bancárias, fiscais e previdenciárias.

A Equatorial adquiriu a participação societária indireta do Estado por R$ 100 mil. O preço, isoladamente, não representava o custo econômico da operação. A companhia possuía passivos elevados, precisava recuperar a capacidade de investimento e estava submetida às obrigações do contrato federal de distribuição.

Os R$ 3,8 bilhões informados pela concessionária equivalem a aproximadamente 2,4 vezes a projeção apresentada em 2021. A comparação mostra que o investimento executado superou o cenário estimado na estruturação da privatização.

Isso não significa, necessariamente, que houve antecipação ou cumprimento adicional de uma obrigação contratual no mesmo valor. A estimativa do BNDES e o investimento divulgado pela empresa possuem naturezas que precisam ser analisadas dentro dos planos anuais, das bases de ativos e dos processos tarifários da distribuidora.

Ainda assim, a diferença é suficiente para demonstrar que a companhia voltou a mobilizar recursos em uma escala que a antiga CEEE-D, pressionada pelo endividamento, não conseguia sustentar.

Privatização não encerrou a concessão pública

A operação realizada em 2021 transferiu o controle acionário da CEEE-D, mas não transformou a distribuição de energia em uma atividade sem obrigações públicas.

A rede continua sendo operada por meio de uma concessão federal. A Aneel permanece responsável pela regulação, fiscalização, definição das tarifas e aplicação dos padrões de qualidade.

Essa distinção é relevante porque privatização e concessão não são sinônimos. A privatização alterou quem controla a empresa. A concessão estabelece as condições pelas quais essa empresa pode prestar o serviço público.

O novo controlador assumiu a distribuidora, seus ativos, passivos e responsabilidades operacionais. A população permaneceu usuária de um serviço regulado, com direito à continuidade, segurança, atendimento e compensações quando determinados limites são ultrapassados.

Por isso, os investimentos da CEEE Equatorial devem ser avaliados dentro dos resultados da concessão, e não apenas como uma demonstração de capacidade empresarial.

Rede ganhou cinco mil quilômetros e novas subestações

No balanço oficial dos cinco anos de operação, a CEEE Equatorial informou que construiu cinco novas subestações e ampliou ou modernizou outras 15 unidades.

As intervenções adicionaram 236,9 MVA de potência ao sistema. A extensão das redes de baixa e média tensão passou de aproximadamente 57 mil quilômetros, em 2022, para 62 mil quilômetros em 2025.

A companhia também declarou ter instalado 125,2 mil postes, considerando novas estruturas e substituições por modelos de concreto ou fibra. Na automação, foram incorporados mais de 1,2 mil equipamentos que permitem monitorar e operar partes do sistema remotamente.

A tecnologia pode reduzir o tempo de resposta durante uma falha. Em determinadas ocorrências, o centro de operação consegue identificar o problema, isolar o trecho afetado e restabelecer o fornecimento para parte dos consumidores antes da chegada das equipes de campo.

A distribuidora ainda registrou 71,4 mil quilômetros de inspeções e 143,8 mil correções de defeitos. As ações preventivas incluíram 192,1 mil podas próximas à rede e a limpeza de 2,4 mil hectares de faixas de vegetação.

Essas entregas representam uma ampliação material da infraestrutura. O efeito sobre a qualidade, entretanto, depende da localização das obras, do estado anterior dos ativos e da capacidade de reduzir interrupções em situações normais e emergenciais.

DEC e FEC melhoraram em cinco anos

Os indicadores apresentados pela empresa confirmam uma evolução na continuidade do fornecimento.

O DEC, que mede a duração média das interrupções por unidade consumidora, caiu de 20,45 horas, em junho de 2021, para 10,16 horas em abril de 2026. A redução foi de 50,32%.

O FEC, indicador que representa a frequência média das interrupções, passou de 10,28 para 4,55 ocorrências no mesmo intervalo, uma queda de 55,7%.

Os números indicam que os consumidores enfrentam, em média, menos interrupções e permanecem menos tempo sem energia do que no início da gestão privada.

Mas esses indicadores não devem ser analisados apenas pela comparação com a situação anterior. Uma concessão também precisa ser avaliada em relação aos limites regulatórios e ao desempenho das demais distribuidoras.

É nessa comparação que o balanço se torna mais complexo.

CEEE Equatorial ficou em último lugar no ranking da Aneel

No ranking de continuidade de 2025, a CEEE Equatorial registrou DGC de 0,98 e ficou na 33ª posição entre as 33 distribuidoras de grande porte analisadas.

O DGC, ou Indicador de Desempenho Global de Continuidade, é calculado a partir da relação entre os resultados apurados de DEC e FEC e os limites anuais definidos pela Aneel.

Quanto menor o indicador, melhor o desempenho relativo da distribuidora.

O resultado de 0,98 representa uma melhora expressiva em comparação com o DGC de 1,76 registrado em 2024. A empresa saiu de uma situação em que ultrapassava de maneira significativa suas referências regulatórias para uma posição próxima aos limites estabelecidos.

A última colocação, entretanto, mostra que as demais distribuidoras de grande porte apresentaram desempenho proporcionalmente melhor em 2025.

Não existe contradição entre os dados. A CEEE Equatorial melhorou em relação ao próprio histórico, mas ainda não conseguiu alcançar seus pares na comparação nacional.

Investimentos da CEEE Equatorial ainda precisam chegar à percepção do usuário

Uma das dificuldades na avaliação de concessões de infraestrutura é o intervalo entre a execução financeira e o resultado percebido pela população.

Parte dos investimentos atende ao crescimento do mercado e à conexão de novos consumidores. Outra parcela substitui ativos antigos, corrige falhas acumuladas ou amplia a capacidade de subestações.

Há ainda recursos direcionados à automação e à prevenção de ocorrências. Seus efeitos aparecem gradualmente e podem ser mais visíveis quando a rede enfrenta uma situação crítica.

Isso significa que o investimento não produz uma melhora linear e imediata. Ao mesmo tempo, a concessionária precisa demonstrar que os recursos foram direcionados às áreas capazes de gerar maior impacto para os usuários.

O balanço seria mais transparente se o valor total fosse detalhado por expansão, substituição de ativos, manutenção, automação, eficiência energética e resiliência climática.

Também seria relevante relacionar cada grupo de investimentos a metas objetivas, como redução do DEC, do FEC, do número de consumidores afetados e do tempo médio de restabelecimento.

Sem essa conexão, o debate tende a permanecer dividido entre o volume financeiro divulgado pela empresa e a experiência cotidiana dos usuários.

Eventos extremos mudam o padrão de investimento

A resiliência climática tornou-se um dos principais desafios da concessão. Entre 2021 e 2025, a empresa contabilizou 57 eventos climáticos severos em sua área de atuação.

Temporais, enchentes, ventos fortes e quedas de árvores podem provocar danos simultâneos em diferentes pontos da rede. Sistemas com grandes extensões rurais enfrentam dificuldades adicionais de acesso e mobilização de equipes.

A resposta não depende apenas da quantidade de trabalhadores enviados após uma ocorrência. Ela começa no planejamento da infraestrutura.

Postes mais resistentes, redes protegidas, automação, manejo preventivo da vegetação, redundância e rotas alternativas de fornecimento reduzem a quantidade de consumidores afetados e aceleram a recuperação.

Os investimentos da CEEE Equatorial precisam, portanto, atender a três frentes ao mesmo tempo: ampliar o sistema, recuperar ativos deteriorados e adaptar a rede a um padrão climático mais severo.

Esse equilíbrio influencia o tempo necessário para que os aportes se convertam em melhora permanente dos indicadores.

Recuperação da concessão exige fiscalização contínua

A transferência para a iniciativa privada não reduz a responsabilidade do Estado sobre o serviço. Ao contrário, exige capacidade permanente de acompanhar investimentos, indicadores e respostas a emergências.

A Aneel define os limites de continuidade, monitora o desempenho das distribuidoras e pode aplicar medidas quando as obrigações não são cumpridas. Consumidores também podem receber compensações financeiras quando os indicadores individuais ultrapassam os limites regulatórios.

A fiscalização deve identificar se um resultado ruim decorre de um evento excepcional, da deterioração histórica da rede, de falhas de manutenção ou de investimentos insuficientes ou mal direcionados.

Essa análise é mais relevante do que uma avaliação limitada à dicotomia entre gestão pública e privada. O objetivo do contrato é garantir que a empresa responsável pelo serviço tenha condições financeiras, técnicas e operacionais para entregar o desempenho exigido.

Para o mercado de PPPs e Concessões, o caso mostra que a mobilização de capital privado é apenas uma etapa da recuperação de uma infraestrutura pública. O resultado depende de governança contratual, metas mensuráveis, fiscalização e transparência.

Eficiência energética e Tarifa Social ampliam dimensão da concessão

Além das obras na rede, a CEEE Equatorial informou ter investido R$ 57,2 milhões em eficiência energética, beneficiando 104,2 mil famílias.

As ações incluíram a entrega de 120,3 mil lâmpadas de LED, 10,8 mil geladeiras e 4,5 mil chuveiros mais eficientes.

Em 2025, a Tarifa Social alcançou 221 mil consumidores e proporcionou R$ 92 milhões em descontos, segundo os dados divulgados pela companhia.

Essas iniciativas são relevantes porque a qualidade de uma concessão de energia não se limita à continuidade. Ela também envolve acesso, segurança, redução de perdas, atendimento e capacidade de incluir consumidores de baixa renda.

O índice de perdas de energia caiu de 18,62%, em junho de 2021, para 12,71% em dezembro de 2025. Mais de 452 mil consumidores foram regularizados durante o período, de acordo com a distribuidora.

Os resultados sociais e comerciais, porém, não substituem os indicadores de qualidade da rede. Uma distribuidora precisa avançar simultaneamente em eficiência, inclusão e confiabilidade.

Próximo ciclo será decisivo para avaliar os investimentos

A previsão de mais R$ 1 bilhão para 2026 amplia a responsabilidade da empresa de demonstrar a relação entre recursos, obras e resultados.

Depois de cinco anos, a CEEE Equatorial já consegue mostrar que recuperou capacidade de investimento, expandiu a infraestrutura e reduziu de maneira relevante a duração e a frequência das interrupções.

O próximo ciclo deverá revelar se essa evolução será suficiente para alterar sua posição regulatória.

Para isso, a companhia precisará reduzir os indicadores em velocidade superior à das demais distribuidoras. Também terá de demonstrar desempenho consistente durante eventos extremos, especialmente nos municípios onde a percepção sobre a qualidade permanece mais crítica.

Os investimentos da CEEE Equatorial mostram que a recuperação de uma distribuidora fragilizada exige capital em grande escala. O ranking da Aneel mostra que o capital, sozinho, não encerra esse processo.

A avaliação da privatização dependerá cada vez menos do valor aplicado e cada vez mais da capacidade de transformar os aportes em fornecimento confiável, resposta rápida e qualidade comparável às melhores concessões do país.

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