PPP das escolas de Porto Alegre põe manutenção no centro do contrato

Projeto reúne 107 unidades em uma concessão administrativa de 20 anos, com pagamento condicionado à qualidade da infraestrutura e dos serviços não pedagógicos.

A PPP das escolas de Porto Alegre inaugura uma nova etapa na gestão da infraestrutura educacional da capital gaúcha. Em vez de contratar separadamente obras, manutenção, limpeza, segurança, tecnologia e outros serviços de apoio, o município concentrou essas responsabilidades em três contratos de concessão administrativa com duração de 20 anos.

O projeto Escola Bem-Cuidada alcança 107 unidades da rede municipal. A concessão contempla 97 escolas existentes, das quais 96 passarão por reformas, além da construção de dez novas escolas municipais de Educação Infantil. A expectativa é criar aproximadamente 1,8 mil vagas em regiões com maior demanda.

A operação será conduzida pelo Consórcio Cuidar Porto Alegre, formado pela Infinity Infra Educacional, ligada à Astra, e pela Afonso França Construções. O grupo venceu os três blocos territoriais da licitação com desconto de 28% sobre os valores de referência. De acordo com a Prefeitura de Porto Alegre, o resultado representa uma economia superior a R$ 1,3 bilhão ao longo da vigência contratual.

Mais do que financiar reformas, a PPP das escolas de Porto Alegre procura alterar a lógica de contratação da infraestrutura escolar. A empresa responsável pela obra também terá de conservar o prédio, substituir equipamentos e manter os serviços funcionando. O desempenho durante a operação influenciará diretamente o valor pago pelo município.

O projeto se insere no crescimento das PPPs e Concessões voltadas à infraestrutura social. Nesses contratos, a principal inovação não está apenas na presença do capital privado, mas na possibilidade de integrar investimento, manutenção e prestação de serviços dentro de uma mesma estrutura de longo prazo.

PPP das escolas de Porto Alegre não transfere a gestão do ensino

A principal divisão estabelecida pelo contrato ocorre entre as atividades pedagógicas e os serviços relacionados à infraestrutura.

A concessionária não poderá interferir no currículo, no conteúdo ministrado, no planejamento educacional, na direção das escolas ou no trabalho dos professores. A alimentação escolar também permanecerá sob responsabilidade da Secretaria Municipal de Educação.

Professores, diretores e demais profissionais da educação continuarão vinculados ao poder público. O parceiro privado assumirá somente a infraestrutura e os serviços classificados como não pedagógicos.

Essa separação é fundamental para compreender o modelo. A PPP das escolas de Porto Alegre não privatiza o ensino municipal. O município continuará responsável pela política educacional e pelo atendimento aos estudantes, enquanto a concessionária cuidará das condições materiais necessárias para o funcionamento das unidades.

O objetivo é retirar das equipes escolares parte das demandas relacionadas a infiltrações, instalações elétricas, limpeza, segurança, internet, equipamentos danificados e contratação de reparos. A expectativa é permitir que diretores e professores concentrem mais tempo na aprendizagem e na gestão pedagógica.

Projeto reúne 97 escolas existentes e dez novas unidades

As unidades foram divididas em três blocos. O Bloco Norte reúne 31 escolas existentes e quatro novas unidades de Educação Infantil. O Bloco Centro possui 31 escolas atuais e duas novas EMEIs. O Bloco Sul concentra 35 escolas existentes e outras quatro unidades infantis.

Embora os contratos tenham sido licitados separadamente, o mesmo consórcio venceu os três blocos. Na prática, uma única estrutura empresarial responderá pela infraestrutura das 107 escolas, mas cada lote conservará suas obrigações, indicadores e mecanismos de pagamento.

As dez novas unidades serão implantadas nos bairros Rubem Berta, Santa Rosa de Lima, Mário Quintana, Santo Antônio, Jardim do Salso, Aberta dos Morros, Hípica e Restinga. A localização busca ampliar a oferta de Educação Infantil em áreas com maior demanda por vagas.

Das 97 escolas existentes, 96 participarão do programa de reformas. A EMEF João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes, conhecida como Escola Laçador, permanecerá no programa de manutenção e serviços, mas não será submetida ao mesmo conjunto de intervenções previsto para as demais unidades.

Contrato integra obras, manutenção e serviços de apoio

A concessionária será responsável pela construção das novas escolas, execução das reformas e manutenção preventiva e corretiva dos prédios. O escopo inclui redes elétricas e hidráulicas, estruturas, pisos, calçadas, áreas externas, quadras, mobiliários e equipamentos.

As intervenções também deverão contemplar acessibilidade, implantação ou renovação dos Planos de Prevenção e Proteção Contra Incêndios, instalação de aparelhos de ar-condicionado em ambientes pedagógicos, substituição de mobiliários e cobertura de quadras esportivas.

O contrato ainda reúne limpeza, portaria, vigilância, controle de pragas, gestão de resíduos, manutenção de áreas verdes e suporte de tecnologia da informação. Despesas com energia elétrica, água, esgoto, telefonia e internet também ficarão sob gestão privada.

Nas unidades de Educação Infantil, o escopo inclui lavanderia, higienização, manutenção e distribuição de enxoval. A empresa deverá substituir mobiliários e equipamentos danificados, furtados, vandalizados ou que deixarem de funcionar adequadamente.

A integração procura eliminar uma fragilidade comum das contratações fragmentadas. Quando cada necessidade depende de um contrato ou processo licitatório diferente, pequenos problemas podem permanecer sem solução por longos períodos. Na PPP, essas ocorrências passam a integrar uma obrigação contínua de disponibilidade.

Chamados terão prazo contratual de atendimento

A PPP das escolas de Porto Alegre transforma problemas rotineiros em ocorrências registradas, mensuráveis e sujeitas a consequências financeiras.

Falta de papel higiênico, sabonete ou papel-toalha deverá ser solucionada em até seis horas. O mesmo prazo será aplicado a banheiros sujos, acúmulo de lixo, ralos entupidos e lâmpadas queimadas.

Problemas graves de conexão Wi-Fi e ausência de profissionais na portaria deverão ser corrigidos em até duas horas. Tomadas sem funcionamento terão prazo de 48 horas. Falhas, rachaduras ou acúmulo de água nos pisos das quadras poderão ter prazo de até 120 horas.

Todos os chamados serão registrados em um Sistema de Gestão e Acompanhamento acessível ao poder público. A plataforma funcionará como central de serviços, help desk e base de fiscalização das obrigações contratuais.

A existência de prazos, isoladamente, não garante a resolução dos problemas. O diferencial está na possibilidade de comparar o horário de abertura e encerramento dos chamados, verificar a qualidade do atendimento e descontar parte da remuneração quando os níveis de serviço não forem cumpridos.

Pagamento da PPP das escolas de Porto Alegre dependerá do desempenho

Como o projeto é uma concessão administrativa, estudantes e famílias não pagarão tarifas. A concessionária será remunerada por contraprestações públicas realizadas pelo município.

O pagamento não será automaticamente igual ao valor máximo previsto. A contraprestação será submetida a um fator de desempenho, calculado a partir da disponibilidade da infraestrutura e da qualidade dos serviços.

A avaliação ocorrerá em ciclos trimestrais e contará com um verificador independente contratado pelo poder concedente. A aferição combinará inspeções, informações registradas no sistema de acompanhamento e pesquisas de satisfação com os usuários das escolas.

O Sistema de Mensuração de Desempenho atribui peso de 40% à qualidade da infraestrutura, 50% à qualidade e à disponibilidade dos serviços e 10% à qualidade da comunicação.

Serão avaliados aspectos como manutenção predial, reposição de mobiliário, limpeza, segurança, conectividade, fornecimento de utilidades, funcionamento da central de chamados e satisfação da comunidade escolar.

Se os níveis estabelecidos não forem alcançados, a concessionária poderá sofrer redução na contraprestação. Os documentos completos da licitação, incluindo a matriz de riscos, o mecanismo de pagamento e o sistema de desempenho, estão disponíveis no portal oficial do projeto.

PPP das escolas de Porto Alegre adota lógica de ciclo de vida

A modelagem de referência estimou aproximadamente R$ 911 milhões em investimentos durante a concessão. O cálculo considerou cerca de R$ 394 milhões para reformas, R$ 72 milhões para a construção das novas escolas e R$ 445 milhões em reinvestimentos na infraestrutura, nos equipamentos e nos mobiliários.

O investimento direto não deve ser confundido com o valor global dos contratos. O Capex reúne os recursos aplicados em obras, equipamentos e melhorias. O valor contratual também incorpora as despesas operacionais e a remuneração dos serviços prestados durante duas décadas.

A prefeitura informou que gastava aproximadamente R$ 269 milhões por ano para manter as escolas em funcionamento antes da parceria. Esses recursos estavam distribuídos entre manutenção, limpeza, segurança, energia, água, tecnologia e diferentes contratos de apoio.

Com a concessão, parte dessas despesas passa a ser organizada em contratos de longo prazo com metas de desempenho. A comparação entre o modelo anterior e a PPP, entretanto, precisará considerar não apenas os valores pagos, mas também o estado de conservação dos prédios, a velocidade dos reparos e a qualidade dos serviços entregues.

A lógica de ciclo de vida cria um incentivo adicional. Como a concessionária precisará manter os prédios durante 20 anos, materiais de baixa durabilidade e soluções construtivas inadequadas poderão aumentar seus próprios custos futuros.

Obras e assunção das escolas ocorrerão gradualmente

Cada escola existente deverá ter suas intervenções concluídas em até 18 meses depois da emissão do respectivo termo de assunção. O cronograma global do programa de reformas poderá alcançar 46 meses contados da ordem de início.

As dez novas unidades deverão ser projetadas, aprovadas, construídas, equipadas e entregues em até 24 meses. A transição da infraestrutura das escolas existentes ocorrerá em etapas.

No quarto mês, a concessionária deverá assumir as primeiras 25 escolas: oito no Bloco Norte, oito no Centro e nove no Sul. No 16º mês, outras 31 unidades entrarão no contrato. A etapa final está prevista para o 28º mês, com a assunção das 41 escolas existentes restantes.

O faseamento reduz o risco de transferir toda a rede simultaneamente. Também permite que a prefeitura acompanhe a capacidade de mobilização do consórcio antes da incorporação das etapas seguintes.

Por outro lado, a transição exigirá coordenação. Durante mais de dois anos, parte das unidades estará sob o novo modelo e outra parcela continuará funcionando dentro da estrutura anterior de contratos e manutenção.

Fiscalização será o principal teste do projeto

A PPP das escolas de Porto Alegre cria mecanismos para acompanhar milhares de chamados e dezenas de serviços. A efetividade do modelo, porém, dependerá da capacidade municipal de validar as informações e aplicar os efeitos previstos no contrato.

Chamados encerrados sem solução, inspeções insuficientes ou pesquisas de satisfação pouco representativas podem reduzir a eficácia do pagamento por desempenho. O verificador independente não substitui a atuação da prefeitura, que continuará responsável pela gestão e pela fiscalização da concessão.

Diretores, professores e funcionários também terão papel importante. Como usuários permanentes dos prédios, eles estarão mais próximos das falhas de infraestrutura e precisarão registrar ocorrências, acompanhar prazos e avaliar a qualidade das soluções.

O resultado da concessão não poderá ser medido somente pelo número de escolas reformadas. Será necessário acompanhar a disponibilidade dos prédios, a reincidência dos problemas, o tempo médio de atendimento, os descontos aplicados e a satisfação da comunidade escolar.

O teste da PPP das escolas de Porto Alegre começará depois das obras. O diferencial do contrato será demonstrado se as unidades permanecerem limpas, seguras, conectadas e conservadas ao longo das duas décadas.

Mais do que construir e reformar escolas, o projeto pretende estabelecer um padrão contínuo de infraestrutura. É nesse ponto que a modelagem será confrontada com a realidade da operação.

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